segunda-feira, 16 de abril de 2018

Religiões nascidas na Índia



Religiões com origem na Índia                   




O hinduísmo é uma religião da Índia, mas tem muitos adeptos também no Nepal, em Bangladesh e no Sri Lanka. Depois de muitos anos de domínio colonial britânico, em 1947 a Índia se tornou uma república independente: um Estado secular (não religioso), com uma constituição que garantia direitos iguais para todas as denominações religiosas e proibia qualquer forma de discriminação baseada em religião, raça, casta ou sexo. Hoje cerca de 80% da população da Inida é hinduista. 10% muçulmano e 4 % cristã.

Embora o budismo tenha se originado na Índia e sob esse aspecto possa ser considerado uma religião indiana, pouco resta do budismo na Índia de hoje; ele é mais difundido no Sri Lanka e no Sudeste da Ásia. Entretanto, o budismo também tem uma longa e importante história na China, na Coréia e no Japão. Excluindo a China, estima-se que quase 200 milhões de pessoas professam a fé budista.
Em  1947,  a  tensão  entre  hinduístas  e  muçulmanos  em razão da  independência da  Índia resultou na criação            como um Estado muçulmano separado, dividido em duas partes distintas, o Paquistão do  Leste e  o  Paquistão do  Oeste. Depois da  guerra de 1971  entre  a   Índia  e   o   Paquistão,  o   Paquistão  do  Leste  se  tornou um  Estado independente com o nome de Bangladesh.
Outros países asiáticos dominados pelo islã são a Malásia e a  Indonésia. Nas Filipinas, país que permaneceu colônia espanhola até  o final do século XIX, predomina o catolicismo romano (cerca de 80% da população).

HINDUÍSMO

o que é o hinduísmo?
Diferentemente das outras religiões mundiais (budismo, cristianismo e islã), o hinduísmo não tem fundador, nem credo fixo nem organização de espécie alguma. Projeta-se como a "religião eterna" e se caracteriza por sua imensa diversidade e pela capacidade excepcional que vem demonstrando através da história de abranger novos modos de pensamento e expressão religiosa.
A palavra hinduísta significa simplesmente "indiano" (da mesma raiz  do rio Indo),  e talvez  a melhor  maneira  de definir  o hinduísmo seja  dizer que é o nome das várias formas de religião que se desenvolveram na do Norte, de 3 a 4 mil anos atrás. O cristianismo e o judaísmo também têm uma história que se estende por milhares de anos, mas o peculiar no hinduísmo é que todos os seus estágios históricos são visíveis simultaneamente. Apesar de sua complexidade, ainda se pode experimentar o hinduísmo como um todo. Assim, ele já foi comparado a uma floresta tropical, onde várias camadas de animais e de plantas se desenvolvem num grande meio ambiente.

A RELIGIÃO VÉDICA
As raízes  do hinduísmo  podem  ser  encontradas  em algum  ponto  entre o ano 1500 a.C. e o ano 200  a.C.,  quando  os chamados  arianos (isto é, os "nobres") começaram a subjugar o vale do Indo. As crenças dessas pessoas tinham ligação com outras religiões indo-européias, como a grega, a romana e a germânica. Sabemos disso pelos chamados hinos védicos (da palavra Veda, ou seja, "conhecimento"), que eram  recitados por  sacerdotes  durante  os sacrifícios  a seus  muitos  deuses.  O Livro dos  Vedas  consiste  em  quatro  coletâneas,  das  quais  certas  partes  datam  de  cerca de 1500 a.C.
O sacrifício era importante para o culto ariano. Faziam-se oferendas aos deuses a fim de conquistar seus favores e manter sob controle as forças do caos.
Achados  arqueológicos  no  vale  do  Indo  indicam  que  houve uma  civilização  avançada  na  Índia,  anterior  à  chegada  dos  indo- europeus, e  é  certo  que  essa  civilização  também  contribuiu para o hinduísmo moderno. A época conhecida como período védico tardio, de 1000 a.C. até 500 a.C., marcou uma virada crucial no desenvolvimento religioso da Índia. Importância especial   tiveram   os   Upanishads,  que   até   hoje   são   os textos  hinduístas mais lidos. Foram escritos sob a forma de conversas entre mestre e discípulo, e introduzem a noção de Brahman, a força espiritual essencial em que se baseia todo o universo. Todos os seres vivos nascem do Brahman, vivem no Brahman e ao morrer retornam ao Brahman.

AS CASTAS, AS VACAS E O CARMA
O hinduísmo moderno compreende uma grande variedade de idéias e formas de culto. Será que os hinduístas têm alguma coisa em comum? Sim. Uma boa definição seria: as castas, as vacas e o carma.

SISTEMAS DE CASTAS
 Todas as sociedades têm várias formas de distinção e  estratificação em classes, mas é difícil encontrar um país onde isso tenha sido praticado tão sistematicamente quanto na Índia. Desde os tempos antigos sempre houve quatro classes sociais (a palavra sânscrita empregada é varna, que significa "cor"):
* sacerdotes (brâmanes);
* guerreiros;
*          agricultores, comerciantes e artesãos, e
*          servos.

Porém,            à          medida           que      a          sociedade       indiana            se desenvolveu, as pessoas foram sendo divididas em novas  castas. No início do século XX havia em torno de 3 mil castas.
Não se sabe como surgiu o sistema de castas, e não há prova definitiva de que se trata de uma evolução do sistema de quatro classes. Seria mais verdadeiro dizer que esse sistema de  classes se ajusta bem às castas.
A palavra inglesa caste  vem  do  português  casta (feminino de casto, "puro"); o termo usado na Índia é jati, que significa "nascimento" ou "tipo". As castas em geral se
 associam  a  profissões  especiais.  Uma  aldeia   indiana  pode  conter de vinte a trinta dessas castas, e  com  freqüência  cada  uma  ocupa um agrupamento especial de casas. Cada casta tem suas próprias regras de conduta e  de  prática religiosa, que determinam com quem  a pessoa pode se casar, o que ela pode comer, com quem pode se associar e que tipo de trabalho pode realizar. A base religiosa desse sistema é a noção de pureza e impureza. O contraste entre o que é "limpo" e o que é "impuro" permeia todo o hinduísmo. Para um brâmane, tudo o que tenha a ver com as  coisas  corporais  ou  materiais é impuro. Se ele se tornou impuro como resultado do nascimento, da morte ou do sexo — ou por meio do contato com um indivíduo "sem casta", ou membro de uma casta inferior —, há  diversas maneiras pelas quais ele pode se purificar. O método tradicional mais conhecido de purificação utiliza a água de um dos muitos rios sagrados da Índia, como o Ganges.
As regras que governam a pureza formam a base da divisão de trabalho na comunidade. Certas atividades e certos trabalhos são tão  impuros que somente determinadas castas podem realizá-los. Essas castas  têm o dever de ajudar os  outros grupos a manter sua pureza.   Por outro lado, apenas as castas que preencham  os  requisitos  da  pureza podem se aproximar dos deuses mais elevados. Para que isso ocorra com mais facilidade, outras pessoas devem ser impuras. Entretanto, todos se beneficiam da limpeza dos "puros", pois todos os hinduístas tiram proveito dos ritos que são praticados.

 O   sistema  de   castas  deu   um   contexto  à   vida  do  indiano,  assim como fez a tribo para o africano. Ser expulso de sua casta é o   pior castigo imaginável, e só é usado para os crimes particularmente sérios. O nível mais baixo no sistema de castas é o dos "intocáveis" ou "sem casta" (também chamados "párias"); por exemplo, os criminosos, os  lixeiros  e  os  que  trabalham  curtindo  o  couro  dos  animais.  Os  cristãos e os muçulmanos ficam totalmente fora do sistema de castas.
As complexas regras que controlam o contato social entre as castas eram muito rígidas; mas a Constituição indiana, que entrou em vigor em 1947, introduziu certas  medidas  para  banir  a  discriminação por casta. Como não basta mudar a legislação para acabar com antigas divisões sociais e religiosas, o sistema de castas continua tendo um papel importante, em especial nas aldeias.

A VACA SAGRADA
A vaca é um animal sagrado na Índia e é adorada  durante certas festas religiosas. Isso provavelmente se relaciona com um antigo  culto de fertilidade; nos Vedas há hinos à vaca, pois ela supre tudo o  que é necessário  para sustentar a vida. A  vaca se  tornou  um  símbolo  da vida, e não é permitido matá-la. Muitos ocidentais têm uma visão bastante negativa desse fato. Segundo eles, as vacas deveriam ser  mortas para fornecer alimento à legião de famintos da Índia. Entretanto, considerando o lugar que a vaca ocupa na agricultura indiana,  vemos  também  aspectos  positivos:  70%  da  população vive  do cultivo da terra, e há uma grande falta de animais de tração num  país em que o trator é  pouco difundido. Além  disso, o  excremento  das vacas é útil não só como fertilizante mas também como combustível.
Em termos de culto, a vaca é mais "pura" do que o brâmane. Assim, a pessoa que toca uma vaca está ritualmente limpa. Todos os produtos derivados da vaca — o  leite e  a  manteiga — são  utilizados  em diversas cerimônias de purificação. Até mesmo o excremento e a urina da vaca são tão sagrados que podem ser usados como agentes  de purificação.
Os hinduístas têm outros animais sagrados além da vaca, em  especial o macaco, o crocodilo e a cobra. De modo geral, eles não gostam de tirar a vida. Isso transformou muitos hinduístas em vegetarianos e também abriu caminho para o ideal da não-violência, que ficou mais conhecido no Ocidente com a luta de Gandhi para tornar a Índia independente do colonialismo britânico.

CARMA E REENCARNAÇÃO
Um conceito-chave na filosofia dos Upanishads é que o homem tem uma  alma imortal. "Ela não envelhece quando você envelhece,  ela não morre quando você morre."
Um hinduísta acredita que, depois da morte de um indivíduo, sua alma renasce numa nova criatura vivente. Pode renascer numa casta mais alta ou mais baixa, ou pode passar a habitar um animal.
Há uma ordem inexorável nesse ciclo que vai  de  uma  existência a outra. O impulso por trás dela, ou que a mantém sempre em movimento, é o karma do homem, palavra sânscrita que significa "ato". Porém, nesse caso, ato se refere a pensamentos, palavras e sentimentos, não apenas a ações físicas.
A  idéia de  que todas as  ações têm conseqüências  —  e  de  que  essas  conseqüências  podem  aparecer  depois  da  morte  —  não  é,  de  modo algum, peculiar ao hinduísmo. Aqui, a originalidade está no conceito de que todas as ações de uma vida, e somente elas, formam a base  para  a  próxima.  Assim,  o  carma  não  é  uma  punição  pelas más  impessoal — como uma lei natural.
O hinduísmo não reconhece nenhum "destino cego" nem divi- na providência. A responsabilidade pela vida do hinduísta no dia de  hoje — e por sua próxima encarnação — será sempre dele. O homem colhe aquilo que semeou. Os resultados das ações  —  ou  frutos  de  uma vida — derivam dessas  ações  automaticamente.  Poderíamos  dizer que a transmigração está sujeita à lei da causa e efeito.

Em outras palavras, o que a  pessoa  experimenta  nesta  vida em termos de riqueza ou pobreza, alegria ou tristeza,  saúde  ou  doença, é  resultado de suas ações numa vida anterior. É desse modo que os hinduístas explicam as  diferenças  entre  as  pessoas.  A  doutrina do carma dá sustentação a um esquema de relações sociais como o sistema de castas.
Embora a pessoa deva se submeter ao carma que  herdou  de uma vida anterior, ela também exerce o livre-arbítrio no âmbito de  sua  existência  atual.  Portanto,  o  indivíduo  sempre  pode melhorar  seu  carma,  e   assim  lançar  as  fundações  para  uma  vida  melhor  na  próxima encarnação.

TRÊS VIAS DE SALVAÇÃO
Durante o período védico, a doutrina do carma e a da reencarnação eram vistas como algo positivo. Por meio dos sacrifícios     e das boas ações, o indivíduo podia garantir que iria  viver  várias vidas. Mais tarde, o hinduísmo passou a considerar esse  ciclo  como algo negativo, como um círculo vicioso a ser quebrado.
O hinduísmo não possui uma doutrina clara e não ambígua sobre a  salvação que explique de  que modo o  homem pode escapar do interminável e cansativo ciclo das reencarnações. Dentro do hinduísmo há uma grande quantidade de movimentos e seitas com visões divergentes.
Apesar disso, é possível distinguir três  caminhos  diferentes  para a graça, que exerceram papel relevante na história da Índia — e continuam prevalecendo no hinduísmo moderno. São as Vias do sacrifício, do conhecimento e da devoção.
É importante não pensar que essas vias sejam movimentos religiosos organizados. Trata-se, na verdade, de três tendências principais dentro do hinduísmo. O caminho escolhido pode depender do indivíduo. Mas um hinduísta também pode se inspirar nessas três vias.

A VIA DO SACRIFÍCIO
Como já vimos, a  palavra indiana para "ato" é  karma. Hoje ela é usada para denotar todos os atos humanos —  ou  o  resultado coletivo desses atos. No período védico, o termo se referia basicamente  a atos religiosos ou rituais, em especial aos atos sacrificiais. Estes eram necessários para incrementar a fertilidade e manter a  ordem universal. Esse antigo costume sacrificial, minuciosamente descrito nos Vedas, continua a desempenhar um papel capital no hinduísmo. Fazendo sacrifícios e boas ações, muitos hinduístas tentam obter a felicidade terrena, boa saúde, riqueza e copiosa descendência. Em última análise, o objetivo permanece o mesmo de outras correntes do hinduísmo: libertar-se do círculo vicioso da transmigração do espírito.

A VIA DA COMPREENSÃO OU DO CONHECIMENTO
Segundo uma idéia central dos Upanishads, é a ignorância do homem que o amarra ao ciclo da reencarnação. Compreender a verdadeira natureza da existência — o oposto da ignorância — será, portanto, um caminho para a salvação. É apenas quando o homem adquire o reto conhecimento que ele é redimido da implacável roda da transmigração.
O conhecimento que traz a salvação é o de que a alma humana (atmã) e o mundo espiritual (Brahman) são uma coisa só. O atmã é  uma parte integrante não só dos seres humanos, mas também se encontra nas plantas e nos animais. Isso é conhecido como panteísmo (veja página 20).
O Brahman é o princípio construtivo do universo, uma força que permeia tudo, uma divindade impessoal. Todas as  almas individuais são reflexos dessa única alma  universal.  E  como  a  lua, que se reflete em muitos lagos. Pode haver um número infinito desses reflexos, mas existe uma só lua.
O homem é libertado da transmigração ao adquirir plena com- preensão da unidade entre atmã e Brahman. O objetivo é se dissolver no Brahman, assim como uma gota de chuva se dissolve no mar. O homem tem uma centelha divina em seu interior. E mesmo que  ele  seja obliterado como indivíduo, sua origem divina permanece e vai se unir novamente com o espírito universal.

A VIA DA DEVOÇÃO
Uma terceira rota para  a  salvação,  proposta  que começou a se difundir no Sul da Índia por volta de  600  a.C.  e logo se espalhou por todo o subcontinente, é a via da devoção. Já no século III a.C. esse caminho para a graça encontrara sua expressão clássica no Bhagavad Gita, um poema catequético. Essa  terceira  tendência  do hinduísmo é a que predomina na Índia moderna, e o Bhagavad Gita é o livro sagrado que ocupa o lugar supremo na consciência do indiano médio.
Todas as três vias de salvação se baseiam na  doutrina  do carma. A via do sacrifício realça o fato de que  o  homem  pode encontrar a salvação agindo de maneira correta ritualmente. As tendências filosóficas com freqüência representam o ponto de vista oposto. Com a ajuda da ascese ou da contemplação, as pessoas procuram suprimir todo carma pessoal — a fim de abandonar  o  ciclo de uma vez por  todas. Sem  rejeitar esses caminhos tradicionais para  a salvação, o Bhagavad Gita aponta um  caminho melhor e mais fácil.  Se um homem se dedica a Deus e age desinteressadamente, isto é, sem pensar em ganhos e vantagens, ele será, pela graça de Deus, libertado  da transmigração.
O Bhagavad Gita abre o caminho para uma associação mais pessoal com Deus do que os Vedas ou os Upanishads.  Ela  se  caracteriza pelo amor e a devoção (bhakti) do homem para com Deus, num relacionamento eu-tu. Isso não significa que o Bhagavad Gita rejeite o sacrifício ou o conhecimento religioso. Muito pelo contrário
—        tanto o "sacrifício material" como o "sacrifício da compreensão" são vistos sob uma luz positiva, pois a  divindade que  recebe o  sacrifício é  o mesmo Brahman do filósofo. Mas nem os sacrifícios nem os exercícios de ioga devem ser realizados  com o intuito de se ganhar algo em troca, pois nem uma coisa nem outra, isoladamente, é capaz de alcançar  qualquer  resultado.  Em última análise, é a misericórdia divina que salva uma pessoa do ciclo
—        e não seus próprios esforços. Portanto, o caminho mais  seguro  para a salvação é o bhakti, a devoção a Deus e a crença nele. Outro ponto importante é que todas as  pessoas,  independentemente  de  sexo ou casta, podem conseguir a graça se se devotarem a Deus.

CRENÇA DIVINA
A multiplicidade do hinduísmo também se manifesta em seu conceito de Deus. Em sua forma mais filosófica, o conceito hindu de divindade é panteísta. A divindade não é um ser pessoal, mas uma força, uma energia que permeia tudo: os objetos inanimados, as plantas, os animais e os homens. No extremo menos filosófico do espectro há um conceito politeísta, que acredita num grande número  de deuses. Quase todas as aldeias têm a sua própria divindade local.
A adoração divina se concentra em dois deuses em particular, ambos com raízes védicas. Um deles é Vishnu. E um deus suave e amigável, normalmente representado como um lindo jovem.  Sua  maior importância no hinduísmo moderno deriva de seus "avatares" ou revelações, como Rama e Krishna. Especialmente popular  é Krishna, adorado como o onipresente senhor do mundo. Costuma ser retratado como um pastor de  ovelhas, e  suas aventuras eróticas com  as pastoras são interpretadas simbolicamente como o amor de Deus pelo homem. O  relacionamento de  Krishna com sua  amada, Rhada,  é explicado da mesma maneira. O amor entre os dois, sua separação e reconciliação são uma metáfora para o anseio que a alma sente por Deus e por sua união final com ele.
O outro deus com grande significado para o culto é Shiva. Ele     é o deus da meditação e dos iogues, e em geral o retratam como um asceta. E igualmente um deus do desvario e do êxtase, tanto criador como destruidor, o que o torna ao mesmo tempo aterrorizante e atraente. E ele quem traz a doença e a morte, mas é também o que

cura.    Na       devoção          bhakti  ele       é          visto    como   um       deus    cheio   de compaixão, que salva o homem da transmigração.
A filosofia religiosa indiana se baseia na crença num deus  eterno, mas não especifica se esse deus é Vishnu,  Shiva  ou  algum  outro. Deixa-se a cargo do indivíduo decidir de que maneira esse deus deve ser adorado. Nos círculos acadêmicos é comum ver Vishnu e Shiva formando uma trindade com o deus Brahma. Brahma  é  o criador, quem faz o mundo. Vishnu é o sustentador, que protege as leis naturais e a ordem universal. E Shiva é o destruidor, que no final de cada época dança sobre o mundo até reduzi-lo  a  pedaços. Uma  vez que isso acontece, Brahma tem de criar o mundo novamente. Assim, essas três personagens, ou "máscaras", representam três aspectos de Deus: o criador, o sustentador e o destruidor.  Essa  doutrina  trinitária, no entanto, tem pouca relevância na devoção popular.

DEUSAS
O hinduísmo tem uma série de deusas.  Alguns  adotam  a  teoria de que essa abundância de deusas não passa da expressão de  uma grande e poderosa divindade feminina, a "Rainha do Universo" ou "Deusa-Mãe". Sua manifestação mais conhecida é Kali, a deusa negra, adorada sobretudo no Leste da Índia e a quem se sacrificam animais.   O alto  status de Kali no mundo dos  deuses é evidente pelas imagens que a mostram pisoteando o corpo de Shiva.
A importância das deusas na religião indiana é visível pela es- colha da "Mãe Índia" (Bhárata Mata) como a divindade nacional do moderno Estado da Índia. Na cidade de Varanasi há um templo  especial que lhe é dedicado. Ali, em vez de uma representação da  deusa, está exposto um mapa da Índia.

DIVINDADES MENORES
A maioria das aldeias tem seu templo dedicado a Vishnu ou a Shiva. Esses deuses  se  concentram  nas  questões  maiores,  universais, e em geral são homenageados nos grandes festivais. Num nível mais terra-a-terra, as pessoas costumam visitar os pequenos templos dedicados a divindades menos importantes. Embora não sejam tão poderosas como Vishnu ou Shiva, é mais  fácil  se  aproximar  delas  para assuntos de menor importância, tais como problemas pessoais.
Os deuses menores por vezes exercem influência em áreas especiais, por exemplo, em certos tipos de doença. Muitos deles têm origem humana: podem ser heróis que morreram em batalha, ou  esposas que se ofereceram para ser queimadas na pira funerária do marido. Alguns deuses são espíritos malignos que foram deixados  para trás por homens maus. Ao cultivar esses espíritos como deuses, é possível controlar e neutralizar seu mal.


Vida religiosa

O CULTO NO LAR E NO TEMPLO
A maioria dos hinduístas devotos têm  em  casa  uma  sala  ou um canto especial onde põem estampas e esculturas representando um ou mais deuses. Na frente das estampas e imagens costuma haver um pequeno altar para a família celebrar o serviço divino. Em alguns casos isso ocorre diversas vezes por dia; em outros, uma vez por semana, geralmente na sexta-feira.
O culto pode variar de casa para casa, mas com freqüência compreende o sacrifício, a oração, a recitação de textos sagrados e a meditação. Antes de iniciá-lo, é importante estar ritualmente limpo. Quase sempre, um banho purificador é o primeiro passo. Prepara-se então o sacrifício, de acordo com certas regras. Pode-se pôr no altar arroz, frutas ou flores. Feito isso, o adorador se inclina  até  o  chão, com as mãos unidas, diante das imagens divinas. É comum repetir o nome do deus e recitar textos sagrados; porém, também é habitual a oração espontânea, pessoal. Se foram postos frutos diante  das  imagens, estes serão comidos pela família ou oferecidos às visitas que chegarem.
Não é obrigatório que o hinduísta vá ao templo, mas nos templos há muitos serviços populares, e existe um templo em cada aldeia da Índia. O dia no templo começa com música para despertar    os deuses; depois disso, são lavadas as imagens divinas. Durante o dia  os deuses são alimentados várias vezes. As pessoas que chegam ao templo rezam para o deus, oferecem sacrifícios de flores e outros presentes, ou escutam a interpretação das escrituras dada pelo sacerdote.

O COSTUME CORRETO
Segundo os hinduístas, o que a pessoa faz é mais importante   do que aquilo em que ela acredita. O costume correto é mais importante do que a ortodoxia; o rito religioso é mais importante do que o conteúdo religioso.
Embora a vida religiosa na Índia seja variada e multifacetada, a maioria dos indianos poderia concordar quanto a um darma comum, ou seja, uma lei ou ética comum. Isso não implica  uma  igualdade entre as pessoas. Darma significa que todas as pessoas têm responsabilidades para com sua família, sua casta e a  comunidade  como um todo — e que essas responsabilidades, desde o nascimento, variam de um  indiano para outro. Tanto no contexto religioso como no social, a homogeneidade que o hinduísmo  apresenta  está  na divisão do trabalho. Assim como o pássaro e o peixe obedecem a leis diferentes, o membro de uma casta segue regras diferentes das que regem outra casta. Dessa forma, o que é bom para um não é necessariamente bom para o  outro. A  boa moral consiste em  adotar  os preceitos e deveres de sua própria casta.

OS QUATRO ESTÁGIOS DA VIDA
O Bhagavad Gita realça o valor das três vias de salvação e ao mesmo tempo destaca que cada pessoa deve cumprir seus  deveres para com a família e a comunidade. Mas como  conciliar  as  duas  coisas? Desde os tempos antigos a vida do homem foi dividida em quatro estágios diferentes, que servem à compreensão,  à  adoração  e aos deveres da casta. Essa divisão é relevante sobretudo para os brâmanes do sexo masculino. Os homens da  classe  dos  guerreiros  e dos agricultores também podem segui-la, em maior ou menor grau. Entretanto, "os quatro estágios da vida" representam um ideal, que  nem todos praticam.
Em seu oitavo ano de vida o menino brâmane realiza um rito de passagem, no qual recebe o "fio sagrado", simbolizando que ele "nasceu pela segunda vez". O menino agora se torna um discípulo e é entregue a um mestre (guru), com quem estuda os textos sagrados (primeiro estágio).
Quando o jovem completa seu primeiro estágio de vida como discípulo, ele se torna um pai de família (segundo estágio). Casa-se, tem filhos, cumpre os deveres de casta e as obrigações sacrificiais, e desfruta dos prazeres da vida. Essa fase dura até que seus netos comecem a crescer.
O homem entra no estágio contemplativo da vida (terceiro estágio). Sozinho, ou em companhia de sua esposa, ele se  retira para um local tranqüilo. Antigamente, muitas vezes ele ia para a floresta; hoje, em geral ele se dirige a um monastério ou um centro religioso (ashram).
Alguns prosseguem até o quarto estágio da vida e se tornam santos andarilhos. Nessa fase, o homem idoso fica perambulando, sem ter posses nem moradia fixa. Sobrevive com o pouco que recebe de esmola e passa o tempo inteiro em busca  do  autoconhecimento.  Todos os deveres de casta e os laços externos foram rompidos,  e  o divino faz dele a sua morada.

O LUGAR DAS MULHERES
A Índia também é um continente de  grandes  contrastes  no que se refere ao papel da mulher e ao modo como ela é considerada, tanto espiritual como socialmente. O Livro dos Vedas afirma que o homem e a mulher são iguais "como as duas rodas de uma carroça". Entretanto, a aceitação prática dessa idéia tem sido bem mais difícil. Um livro indiano de normas, com 2 mil anos de idade, tem o seguinte a dizer sobre o papel da mulher: "Assim como o estudo e o serviço doméstico na casa de seu mestre são para o menino, assim deve ser para a menina viver com seu marido; ela deve ajudá-lo em  seus  deveres e ser ensinada por ele. Cuidar do fogo sagrado, como seu  esposo lhe ensina, é comparável ao serviço do menino junto ao fogo sacrificial de seu mestre".
As mulheres na Índia são freqüentemente encaradas como "propriedade" do marido. Uma mulher solteira em geral tem  um  status baixo, e uma mulher casada sem filhos pode se  encontrar  numa situação bem precária. Por outro lado, a Índia foi um dos primeiros países a ter uma mulher como primeiro-ministro (Indira Gandhi). Muitas mulheres desfrutam de notável influência pública, e em nenhum outro país do Terceiro Mundo há tantas mulheres trabalhando fora de casa. Nesse contexto, ser membro de uma casta pode constituir um fator decisivo na situação feminina. O culto das numerosas deusas mulheres também pode contribuir para elevar a consciência das mulheres.

Budismo

A VIDA DO BUDA
O fundador do budismo foi o filho de um rajá, Sidarta Gautama (560-480 a.C.), que viveu no Nordeste da Índia. Sobre sua vida há vá- rias histórias, mais ou menos lendárias, mas os pontos de maior destaque são os seguintes:

O PRÍNCIPE SIDARTA
O príncipe Sidarta cresceu no seio da  fortuna  e  do  luxo.  O rajá ouvira uma profecia de que seu filho ou se tornaria um poderoso governante ou tomaria o caminho oposto e abandonaria o mundo por completo. Esta última opção aconteceria se lhe fosse permitido testemunhai as carências e o sofrimento do mundo. Para evitar que  isso ocorresse, o rajá tentou proteger o filho contra o mundo que ficava além das  muralhas do  palácio, ao mesmo tempo que o cercava  de delícias e diversões. Ainda jovem,  Sidarta se  casou com sua prima  e mantinha também um harém de lindas dançarinas.

A VIRADA
Aos 29 anos Sidarta experimentou algo que haveria de ser o ponto crucial de  sua vida. Apesar da  proibição do pai, ele se arriscou  a  sair  do  palácio  e  viu,  pela  primeira  vez,  um  velho,  um  homem  doente e um cadáver em decomposição. Entretanto, depois dessas impressões   desanimadoras,   avistou    um    asceta    com    a expressão  radiante de alegria. Percebeu então que uma vida de riqueza e  prazer   é   uma   existência   vazia   e   sem   sentido.   E   se   perguntou: haverá? Sidarta também          se        sentiu  tomado           por uma            grande            compaixão      pela  humanidade e um chamado para livrá-la do sofrimento. Imerso em pensamentos, voltou ao palácio e na mesma noite renunciou à sua agradável  vida  de  príncipe.  Sem  se  despedir,  abandonou  esposa  e  filho, e partiu para uma vida de andarilho.

A ILUMINAÇÃO
As narrativas relatam que Sidarta, depois de uma vida de abundância, passou para o extremo oposto: os exercícios ascéticos. Obrigou-se a comer cada vez menos, até que finalmente, segundo a lenda, conseguia sobreviver com um único grão de arroz por  dia.  Dessa   maneira   ele   esperava   dominar   o   sofrimento;   mas   nem os  exercícios de ascetismo nem a ioga lhe deram  o  que  procurava. Assim, ele adotou o  "caminho do  meio", buscando a salvação por meio
 da meditação. E, aos 35 anos, após  seis  anos  de  vida  ascética, alcançou a iluminação (bodhi), enquanto estava sentado em meditação sob uma figueira, à margem de um afluente do rio  Ganges.  Sidarta agora se transformara num buda, ou  seja,  um  "iluminado": alcançou  a   percepção  de   que  todo  o   sofrimento  do   mundo  é causado  pelo
 desejo. É  apenas suprimindo o  desejo  que  podemos  escapar de outras

encarnações.
 Durante sete dias e sete noites o Buda ficou sentado debaixo
 de sua árvore da iluminação. Ganhou  dessa  forma  a  compreensão de uma realidade que não é transitória, uma realidade absoluta acima do tempo e do espaço. No budismo isso se chama nirvana. Ao dominar seu desejo de viver, que antes o atava à existência, o Buda parou de produzir carma e, portanto, não estava mais sujeito à lei do renascimento. Conseguira alcançar a salvação para si mesmo, e o caminho estava aberto pata abandonar o mundo e entrar no nirvana
 final.  O  deus  Brahma,  porém,  instou  com  ele  para  que  difundisse
 seus ensinamentos. E então, mais uma vez, o Buda sentiu compaixão pelos outros seres humanos e por todos os seres vivos.  Ele  "contemplou o mundo com um olhar de Buda" e decidiu  "abrir  o  portão  da  eternidade"  para  aqueles  que  o  quisessem  ouvir.  O Buda
 decidira se tornar um guia dos seres humanos.

 BUDA E SEUS DISCÍPULOS
Buda seguiu então para Benares,  que  já  naquela  época  era  um centro religioso. Ali deu sua primeira palestra — o famoso sermão  de Benares, que contém os elementos mais importantes de seus ensinamentos. As "rodas da instrução" tinham sido postas em movimento.
Diversos monges mendigos seguiam Buda, e durante mais de quarenta anos ele e seus discípulos vagaram pela região nordeste da Índia.
Desde o início os seguidores de Buda se dividiram em dois grupos, os leigos e os monges, cada um com seus próprios deveres.
Quando Buda tinha por volta de oitenta anos, de repente adoeceu e decidiu se despedir dos discípulos. Antes de morrer, voltou-se para o triste rebanho dos discípulos a seu redor e disse: "Talvez  alguns   de   vós   estejam  pensando:  'As   palavras   do   mestre
 pertencem ao passado, não temos mais mestre'. Mas não é assim que deveis ver as coisas. O darma (instrução)  que  vos  dei  deve  ser  o vosso  mestre depois que eu partir".

OS ENSINAMENTOS DE BUDA

a lei do carma
O budismo cresceu dentro do hinduísmo como um caminho individual para a salvação. As  duas  religiões  têm  muitos  conceitos em comum: as doutrinas do renascimento, do carma e da salvação.
Para Buda, um ponto de partida óbvio é que o ser humano é escravizado por uma série de renascimentos. Como todas as ações têm conseqüências, o princípio propulsor por trás do ciclo nascimento- morte-renascimento são os pensamentos do homem, suas palavras e seus atos (carma).
Também nós podemos passar pela experiência de ver que certas coisas que pensamos ou fizemos em determinada  época  da vida  nos  afetaram  mais  tarde.  Podemos  sentir  que  nosso  passado  nos  alcançou.  É   essa  mesma  idéia  que  percorre  o   hinduísmo  e  o
 budismo. A diferença é que os orientais vêem essa relação como algo estritamente  regulado  —  e  que  se  estende  de  uma  vida  a  outra. O  tipo de  vida em  que o  indivíduo vai  renascer depende de  suas   ações  em vidas anteriores. O homem colhe aquilo que plantou. Não existe "destino cego" nem "divina providência". O resultado flui automaticamente  das  ações.  Portanto,  é  tão  impossível fugir  de seu  carma quanto escapar de sua própria  sombra.  Enquanto  o  ser humano tiver um carma, ele está fadado a renascer.
Embora se possa dizer que a lei do  carma  possui  um  certo grau de justiça, ela é vista, no hinduísmo e  no  budismo, como algo  um  consiste em ser libertado do círculo vicioso dos renascimentos. A eterna série de reencarnações costuma ser comparada a um rio que separa o  homem do  nirvana. O  objetivo do  budismo, comum com  os  outros caminhos indianos para a salvação, é encontrar a "passagem"  por onde se pode atravessar para a outra margem.

VISÃO DA HUMANIDADE
 Num   aspecto  importante,  porém,  os   ensinamentos  de  Buda  são diferentes do consenso indiano em geral. O hinduísmo  acredita  que o homem tem uma alma individual eterna (atmã), a qual sobrevive de uma existência para outra. Assim como uma pessoa descarta suas roupas velhas e gastas, a alma vai se revestindo de outros corpos, sempre renovados. É a alma do homem — seu eu mais íntimo — que está   acorrentada   à   reencarnação.   A   alma   do   homem   também é  considerada  idêntica,   total   ou   parcialmente,   ao   espírito universal
 (Brahman).
Buda rompe radicalmente com essa doutrina ao  negar  que  o ser humano tenha alma e ao rejeitar a existência de um espírito universal. De acordo com o budismo, a alma é tão fugaz como tudo o mais neste mundo. O fato de um homem achar que é um "eu", ou  uma alma, baseia-se na ignorância, e essa ignorância tem conseqüências graves, uma vez que promove o desejo, e  é  o  desejo  que cria o carma do indivíduo.
O budismo vê a vida humana como uma série ininterrupta de processos mentais e físicos que alteram o homem de momento a momento. O bebê não é a mesma pessoa que o adulto, e o adulto não     é a mesma pessoa que era ontem. E como as imagens numa tela de cinema: movem-se muito depressa e não conseguimos perceber que o filme é "artificial", que não é algo "vivo". Na realidade, o filme é a soma das imagens individuais — ou de uma série de instantes.
 "De nada mais posso dizer: 'Isto é meu'", ensinava Buda, "e de  nada posso dizer: 'Isto sou eu.'" Ambas as coisas são ilusões. Não há   um núcleo imutável da personalidade, não existe um "eu", um ego. Tudo é constituído de fatores existenciais impessoais que formam combinações fadadas a decair. Tudo é transitório.

AS QUATRO NOBRES VERDADES SOBRE O SOFRIMENTO
Depois de experimentar sua iluminação debaixo da figueira, Buda fez o sermão de Benares, em que apresentou as quatro nobres verdades sobre o sofrimento. Elas demonstram que tudo é sofrimento; que a causa do sofrimento é o desejo; que o sofrimento cessa quando o desejo cessa; e que isso se consegue seguindo  o  caminho  das  oito  vias. Em outras palavras: Buda faz primeiro  um  diagnóstico, mostrando que a condição do homem é de doença (primeira nobre verdade). Ele então indica a causa da doença (segunda  nobre verdade). Afirma, no entanto, que a doença é curável (terceira nobre verdade), e por fim dá uma descrição detalhada de como a doença  deve ser tratada, receitando uma cura de oito pontos (quarta nobre verdade). Assim, Buda assume o papel de médico; é por isso que os textos budistas o chamam de "o grande médico".
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A primeira nobre verdade determina que tudo no mundo é sofrimento. "Nascer é sofrer, envelhecer é sofrer, morrer é sofrer, estar unido com aquilo de que não gostamos é sofrer, separarmo-nos daquilo que amamos é sofrer, não conseguir o que queremos é sofrer." Em termos  budistas  o sofrimento
 implica algo mais do que mero desconforto físico e psicológico. Pode-se dizer que a existência como um todo é manchada pelo sofrimento, pois tudo é passageiro. A pessoa que não consegue perceber que o mundo, do ponto de vista do ser humano, é inadequado, é uma pessoa cega. Mas isso não significa que o budismo negue toda felicidade material e mental.  Ele  reconhece que existe alegria tanto na família como no mos- teiro. Todavia, tudo aquilo que amamos e a que nos apegamos simplesmente não vai durar.
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Na segunda nobre verdade, Buda afirma que o sofrimento  é causado pelo desejo do ser  humano.  O  desejo  implica  sobretudo  desejar  com   os   sentidos,  a   sede  de   prazeres físicos.
 Como   essa   ânsia   nunca   pode   ser   plenamente   saciada,   ela  sempre irá acarretar um sentimento de desprazer. Até mesmo o desejo de sobrevivência do ser humano contribui para manter o sofrimento. Enquanto ele se apegar à vida — e continuar acreditando que tem uma alma —, irá perceber o mundo como sofrimento.   O   budismo   também   rejeita   o   extremo   oposto.  O  desejo de  anulação —  ou  desejo de  morrer —  igualmente amarra
 o ser humano à existência. Em primeiro lugar, um tal desejo pressupõe que o ser humano tem uma alma que pode ser eliminada; em segundo, não leva em consideração o carma, que impõe o renascimento. Tirar a própria vida não resolve nada no  budismo. Isso não irá libertar a pessoa do eterno ciclo.

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A terceira nobre verdade é que o sofrimento pode ser levado ao fim. Isso acontece quando o desejo cessa. E quando  o  desejo cessa, começa o nirvana. Um pré-requisito necessário para suprimir o desejo é que a ignorância do homem deve ser enfrentada,  pois ela é a causadora do desejo. Assim, só o homem  que  não  enxerga  sente desejo. A ignorância leva ao desejo, o desejo leva à atividade,  a atividade traz consigo o renascimento, e o renascimento origina mais ignorância. Aqui se descreve um círculo vicioso, e para  que este círculo vicioso — ou "corrente da causalidade" — seja rompido, o homem deve atacar a raiz do problema: sua própria ignorância.
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A quarta nobre  verdade  afirma  que o homem  pode ser libertado do sofrimento — e do renascimento — seguindo o caminho das oito vias.
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O CAMINHO DAS OITO VIAS

Com base em sua própria experiência, Buda acreditava que o homem deve evitar os extremos da vida. Não se deve viver nem no prazer extravagante, nem na autonegação exagerada. Ambos os  extremos acorrentam o  homem ao mundo e, assim, à  "roda da vida".      O caminho para dar fim ao  sofrimento é  o  "caminho do  meio", e  Buda o descreveu em oito partes: (1) perfeita compreensão; (2) perfeita aspiração; (3) perfeita fala; (4) perfeita conduta; (5) perfeito meio de subsistência; (6) perfeito esforço; ( 7) perfeita atenção, e (8) perfeita contemplação.

Perfeita compreensão e perfeita aspiração. É a ignorância do  homem que põe a roda da vida em movimento. Portanto, o homem deve construir sua compreensão sobre como o mundo funciona. Isso significa, entre outras coisas, compreender as verdades acerca do sofrimento e o ensinamento de Buda de que o homem não tem alma. Em seguida, o homem deve se  dedicar a  lutar  contra o  desejo, que  é a raiz do sofrimento. Deve também evitar o ódio e a luxúria, ambos causados pela crença equivocada num "eu" distinto e separado do ambiente em torno. Por último, o homem deve olhar para o  Buda como um ideal.

Perfeita fala, perfeita conduta, perfeito meio de subsistência. Esses pontos estabelecem a ética do budismo, seu  código  moral. Perfeita fala significa que o homem deve se abster de contar mentiras, fazer intrigas e ter conversas vazias, e que deve falar com seus semelhantes de um modo verdadeiro, amigável e carinhoso. Para o budista, ficar em silêncio também está incluído na  fala  perfeita.  Perfeita conduta significa seguir os cinco mandamentos que se aplicam a todos os budistas: não matar nenhum ser vivo, não roubar, não ser sexualmente promíscuo, não mentir e não tomar estimulantes. Mais tarde, foram acrescentados outros mandamentos  enunciados  na forma positiva. Diversos textos budistas ressaltam a utilidade de dar  presentes e realizar serviços para os outros. Estudar a doutrina e disseminá-la também faz parte da perfeita conduta. Um aspecto do perfeito meio de subsistência é que se deve escolher um trabalho que não contrarie os cinco mandamentos. Por exemplo, um açougueiro, um comerciante de vinhos, um fabricante de armas ou um soldado profissional teriam de encontrar uma profissão alternativa se quisessem permanecer budistas. Perfeito esforço, perfeita atenção e perfeita contemplação. Esses três pontos finais se relacionam com a maneira como o ser humano pode melhorar a si mesmo e purificar sua mente. Perfeito esforço significa que  o  budista não deve deixar que pensamentos ou estados   de espírito destrutivos intervenham; e se já estão presentes, deve tentar expulsá-los antes que tenham efeitos palpáveis.  Perfeita atenção é um precursor do último item.  A  autocontemplação  é  o meio pelo qual o budista alcança pleno controle sobre o corpo e a mente. Uma vez conseguido isso, ele está pronto para iniciar a meditação propriamente dita.
 O   budismo  tem  uma   doutrina  abrangente  sobre   os   vários níveis   e   estágios   da   meditação.   Durante   a   meditação,   todos   os músculos      se       relaxam,  possivelmente      também         pelo    fato    de       o  praticante     sentar     numa   posição    especial    de     ioga.    Toda   a concentração  deve  focalizar  uma  só  coisa. Esta pode  ser  um  objeto,
 uma palavra ou a própria respiração. A psicologia budista hoje ensina que a mente humana se  compõe de  duas partes: uma superficial, que  é excitada pelos sentidos, e as profundezas da mente,  que  são tranqüilas e imóveis. O objetivo da meditação é acalmar a superfície perturbada.  Quando  isso  acontece,  o  budista  perde  todo  sentido do tempo e do espaço, e todas as ilusões sobre "eu" e "meu" desaparecem.
 É   nesse   ponto   que   ele   pode   ter   esperança   de   alcançar   a  plena iluminação  (bodhi),  na  qual  atinge  uma  compreensão  perfeita  das "quatro  nobres  verdades",  deixando  de  enganar  a  si  mesmo  sobre a existência e se libertando da lei  do  carma.  O  budista  agora  se  tornou um arhat (isto é, "venerável"), o que  significa  que  não  irá  mais  renascer. E quando morrer, atingirá o eterno nirvana.

Nirvana

Qual foi a verdade que Buda alcançou debaixo de sua figueira? Suas idéias fundamentais eram profundamente pessimistas, como já vimos. Tudo o que existe no mundo é (a) sem autonomia, (b) transitório, e, em conseqüência, (c) pleno de sofrimento. Assim, ele  não via esperança enquanto o homem estivesse preso nesse ciclo. Contudo, existe algo eterno, algo fora do sofrimento. O budista chama  a isso de nirvana. Essa palavra significa, na verdade, "apagar", uma referência ao fato de que o desejo "se extingue" quando se atinge o nirvana. A imagem representa o desejo como uma chama que  se apaga quando o combustível termina — o combustível é a luxúria humana, o ódio e a ilusão.
 As   descrições  do   nirvana  em   textos  budistas  costumam ser expressas em termos negativos. Uma vez que o nirvana é o  oposto  direto do ciclo do renascimento, uma vez que ele não pode ser comparado a nada em nossa vida diária, só é possível dizer o que o
 nirvana  não  é.  Poderíamos   talvez  descrever   o   nirvana  como  uma quinta dimensão, divorciada de nossa existência quadridimensional. Poucos textos budistas, porém, descrevem o nirvana em termos positivos.
Uma condição para alcançar o nirvana é que  o  budista encontre a iluminação (bodhi), exatamente como ocorreu com o Buda debaixo  de  sua  figueira.  Logo,  as  boas  obras  por  si  sós  não   bastam para o nirvana. Entretanto, um estilo de vida  irreprochável  pode levar a bons renascimentos, que mais tarde poderão possibilitar o encontro  da  iluminação.  Buda,  segundo  se  conta,  nasceu  547 vezes antes de finalmente chegar lá.
Um estado em que todo o carma já foi esgotado e a lei do renascimento foi rompida — é isso que o nirvana descreve. Assim, o nirvana é uma condição que se pode experimentar aqui e agora. Pode ser tão intensa que o budista sente que ela está queimando o mundo inteiro. E quando ele enfim volta para o mundo, tudo o que encontrasão cinzas frias.
O nirvana final, que a pessoa atinge quando morre, é irreversível. Por vezes ele é designado no budismo por um termo especial, parinir-vana, isto é, "extinção absoluta", ou "extinção última".

Ética
Quando o Buda alcançou a iluminação depois de sua meditação, o deus Brahma foi até ele e lhe pediu que levasse seus ensinamentos para outras pessoas. E mais uma vez Buda sentiu compaixão pelos seres humanos e por todos os outros seres vivos. "Contemplou o mundo com olhar de Buda" e decidiu "abrir o  portão da eternidade" para os que quisessem ouvir. Buda decidiu se tornar guia do ser humano.
Essa atitude serve de exemplo para outros  budistas,  pois  a  vida de Buda é um ideal que os exorta a se comportar eticamente. A compaixão e o amor são centrais na ética budista. Não só  as  ações,  mas também os sentimentos e afetos são importantes. A caridade que fazemos não apenas afeta os outros, mas contribui para enobrecer  nosso próprio caráter.

Os cinco mandamentos

Para a vida diária o budismo tem cinco regras de conduta:

1.         Não fazer mal a nenhuma criatura viva.
2.         Não tomar aquilo que não lhe foi dado (não roubar).
3.         Não se comportar de modo irresponsável nos prazeres  sensuais.
4.         Não falar falsidades.
5.         Não se entorpecer com álcool ou drogas.

Essas regras de conduta costumam ser chamadas de cinco

mandamentos,   porém         o          budismo          não      reconhece       nenhum          ser
 superior capaz  de dar ordens  à humanidade sobre  como  viver. Assim, as  regras  não  dizem  "farás  isso"  ou  "não  farás  aquilo".  Elas  são formuladas  da  seguinte  maneira:  "Tentarei  ensinar  a  mim  mesmo  a não fazer mal a nenhuma criatura viva".

1.         NÃO FAZER MAL A NENHUMA CRIATURA VIVA.
Esta é considerada a mais importante das cinco virtudes.
Nem um outro ser humano nem os animais devem ser prejudicados.
O ser humano é o mais importante, já que é superior aos animais. Os budistas consideram o pacifismo um ideal, embora nem todos os budistas sejam pacifistas. Também os países budistas já travaram guerras, e  muitas pessoas acreditam que  essa regra pode ser quebrada quando se trata de autodefesa. Entretanto, um texto budista afirma que o soldado profissional que morrer em batalha renascerá no inferno ou então como animal.
Para o budista, a vida começa na concepção; desse modo, o aborto infringe essa primeira regra. Só que os métodos anticoncepcionais normalmente são permitidos.
O suicídio também é uma violação da regra, mas não se a pes- soa sacrificou sua vida por outra vida. Durante a Guerra do Vietnã, vários monges budistas atearam fogo às próprias vestes para despertar   a consciência internacional.
Não há um vegetarianismo coerente no budismo, ainda que muitos monges excluam a carne de sua dieta. Supõe-se que Buda também concordou que se comesse carne, desde que  a  pessoa estivesse certa de que o  animal não fora morto especialmente para  ela. Matar uma mosca com um tapa é pior. Como vemos, o motivo e a intenção são relevantes.

2.         NÃO TOMAR AQUILO QUE NÃO LHE FOI DADO.
Isso não se refere simplesmente ao roubo, mas também à trapaça de todos os tipos. Podemos considerar que é uma regra acerca da correção nos negócios e da ética no trabalho.

3.         NÃO SE COMPORTAR DE MODO IRRESPONSÁVEL NOS PRAZERES SENSUAIS.
Essa regra se refere às atividades sexuais  que  podem  prejudicar os outros:  estupro,  incesto e  adultério.  A  atitude para com o adultério varia segundo os costumes locais. O budismo não abrange apenas sociedades  monogâmicas,  mas  também  culturas  cuja tradição engloba a poligamia e a poliandria. Já o homossexualismo é sempre considerado uma quebra dessa regra.
Essas três primeiras regras se relacionam às atividades  humanas e se incluem no item "perfeita conduta" do caminho das oito vias. O item "perfeita fala" abrange a próxima regra.

4.         NÃO FALAR FALSIDADES.
A verdade é extremamente importante no budismo, mas essa regra não trata apenas da mentira. Ela também alerta contra as respostas maldosas, a fofoca, a ira e as conversas  fúteis.  O  homem deve falar com seus semelhantes de modo verdadeiro, amigável e devotado. Até mesmo ficar em silêncio faz parte da perfeita fala.

5.         NÃO SE ENTORPECER COM ÁLCOOL OU DROGAS.
Ficar entorpecido ou embriagado implica não poder se concen- trar nas regras que devem ser seguidas. O budismo não é tão rigoroso contra o álcool quanto o islã.

Outras regras mais estritas

Em certos períodos, alguns leigos se submetem a  uma  disciplina mais estrita. Alguns vão mais longe, seguindo as mesmas regras que se aplicam aos monges e monjas noviços. Nesse caso, as cinco regras passam a incluir, por exemplo, a abstinência sexual (celibato). Além disso, há outras cinco regras:
*          Não comer em horas proibidas (por exemplo, após o meio-dia).

*          Afastar-se de todos os divertimentos mundanos.
*          Abdicar de todos os luxos (como jóias, perfumes etc).
*          Não dormir numa cama macia nem larga.
*          Não aceitar nem possuir ouro, prata ou dinheiro.


O PERFEITO MEIO DE SUBSISTÊNCIA
O quinto estágio do caminho das oito vias é o perfeito meio de subsistência. Significa, entre outras coisas, que se deve escolher  um meio de vida que não obrigue à infração das cinco regras de conduta. Embora um budista possa comer carne, não deve ser açougueiro. Embora possa tomar um copo de vinho, não deve ser comerciante de vinhos. Embora sirva ao exército de seu país, não deve ser um negociante de armas.
A melhor de todas as vidas é a do monge, pois ele pode se devotar inteiramente ao caminho das oito vias.

O VALOR DA DOAÇÃO
As cinco regras de conduta estão  expressas  na  forma  negativa, mas quando são seguidas,  seus  aspectos  positivos  aparecem. O oposto de fazer mal é demonstrar amor e compaixão. O oposto de roubar é dar. Uma das coisas  mais  positivas  que  um  budista pode fazer é dar presentes. Isso significa sobretudo fazer doações para as sociedades monásticas, que dependem totalmente da caridade dos leigos. Tais presentes elevam o  carma da  pessoa. Mas  dar com a intenção de obter algo em troca não basta.  Quanto mais  puro o motivo para dar, melhor carma trará.
Buda exortava os que desejavam lhe  querer  bem  a  querer  bem aos doentes. Muitos mosteiros se empenham em trabalhos humanitários. Os budistas se preocupam especialmente em  cuidar  dos moribundos. A morte é um momento decisivo em relação ao nascimento; portanto, o objetivo é ter uma boa morte.

A COABITAÇÃO E O PAPEL DAS MULHERES
O casamento não é sagrado para os budistas, mas apenas um tipo de acordo entre as partes. Por esse motivo os  monges  não celebram casamentos. No Japão, quando os budistas se casam, procuram um sacerdote xintoísta. O divórcio, embora ainda pouco comum na maioria das culturas  budistas,  também  não  é  uma  questão religiosa.
O marido deve mostrar respeito para com sua mulher, e esta, por sua vez, deve cumprir seus deveres domésticos. Apesar de várias mulheres em países budistas desfrutarem de uma posição elevada, normalmente se considera menos vantajoso renascer como mulher do que como homem.

A  vida religiosa

MONGES, MONJAS E LEIGOS
Buda    criou    uma     nova    ordem,            a          sociedade       monástica, independente    do    sistema    de    castas.    Para    seguir    à    risca    os ensinamentos   do   Buda,   era   necessário   deixar   para   trás   todos os cuidados e as preocupações relativas  à família e à vida social. Até  hoje  a  ordem  monástica  constitui  a  espinha  dorsal  da  vida  religiosa  na maioria das terras budistas.
Dessa maneira, ao considerar a vida religiosa budista, é importante distinguir entre os monges e as monjas, por um lado, e, por outro, os leigos. Monges e monjas têm regras de conduta muito  mais estritas do que os leigos. Em primeiro lugar, há as dez regras, que também se aplicam aos noviços; além disso, há várias centenas de outros mandamentos e in-junções que definem tais regras com mais precisão.
Como já vimos, os monges e as monjas levam uma vida de simplicidade  e  pobreza.  Desde  os  dias  do  Buda,  costumam  obter  o pouco de que necessitam para sobreviver pedindo esmolas, o que não é tido, de modo  nenhum, como degradante. Pelo contrário: para o  leigo,

é uma honra dar esmolas aos monges. Em alguns lugares os monges esmolam nas ruas, de porta em porta. Monges vestidos com seu hábito cor de açafrão pedindo comida (em geral arroz) pelas ruas é uma cena comum nos países budistas do Sudeste asiático. Em outras regiões, a tarefa de esmolar adquire uma forma mais organizada;  por  exemplo, cada casa de família é responsável pela  comida  do mosteiro em certos dias da semana.
Um mosteiro budista não fica isolado da vida da cidade ou da aldeia. Não são apenas os leigos que têm deveres para com os monges; estes também têm  suas  responsabilidades para com os leigos. Em determinados dias, instruem os leigos
 sobre os ensinamentos do Buda. As pessoas comuns podem ainda passar temporadas em retiro num mosteiro, a fim de meditar ou receber instrução especial. Isso costuma acontecer na época das monções. Em países devotamente budistas, como Birmânia e Tailândia, é comum todos os meninos permanecerem algum tempo num mosteiro, aprendendo budismo.
Assim, podemos dizer que os dois grupos — monges e leigos — são interdependentes. Mesmo que um budista não venha a se tornar um monge em sua vida atual, se ele ajudar a sustentar um mosteiro, pode aspirar a ser um monge na próxima encarnação.

O CULTO
Em tempos antigos o culto religioso consistia inteiramente em venerar as relíquias do Buda ou de outros homens santos. Originalmente as relíquias  eram  guardadas  em pequenos montes de terra (stupas). Aos poucos estas se transformaram naquelas  construções  características,  em  forma de sino ou de domo, que hoje chamamos de pagodes.
A partir do século I a.C., tornou-se comum produzir imagens e estátuas do Buda. Elas podem ser vistas por toda

parte nos países budistas, tanto nos templos  como  nos  lares.  E seja onde for, o budista devoto fará sua confissão —  a  fórmula tripla do refúgio, também chamada "As Três Jóias":
*          Procuro refúgio no Buda.
*          Procuro refúgio nos ensinamentos.
*          Procuro refúgio na comunidade monástica.

Apesar de os budistas venerarem as imagens do Buda queimando incenso  e  pondo  flores  e  outras  oferendas  diante delas, para o budista ortodoxo isso não é propriamente  uma adoração formal. Buda foi apenas o guia da humanidade, foi o mestre "glorificado", e como já entrou no nirvana, não pode ver  nem recompensar as ações de um budista. Por isso, suas imagens não devem ser adoradas; estão ali para lembrar os ensinamentos do Buda e auxiliar o budista em sua meditação e em sua vida religiosa.

FERIADOS RELIGIOSOS
A festa religiosa mais importante para os budistas é o aniversário do nascimento do Buda, comemorado em  abril ou  maio,  na lua cheia. Também se acredita que foi esse o dia da iluminação do Buda e de sua entrada no nirvana. Além dessa data, cada  país  tem várias festas religiosas, muitas vezes celebradas com peregrinações em massa aos mosteiros ou pagodes mais conhecidos. Para a maioria dos leigos, as festas e outras manifestações devocionais externas desempenham um papel bem mais relevante do que a meditação praticada pelos monges.

DEUSES
 Buda  não  negou  a  existência  dos  deuses.  Como  já  vimos,  foi um   deus   que   o   exortou   a   proclamar   sua   mensagem   para   a humanidade.  Ele  não  era  um   ateu  no   sentido  ocidental.   Todavia,
 acreditava que a existência dos deuses era transitória, assim como a existência  humana.  Embora  eles  vivam  mais  tempo  que  os  seres humanos,  em  última  análise  também  estão  atrelados  ao  ciclo  do  renascimento.  Ainda  não  alcançaram  a  "outra  margem"  e, portanto, não podem redimir o  homem de  tal ciclo. Por isso, o  papel dos deuses é insignificante na literatura monástica budista.
Não     obstante,         nos      países  budistas          há        uma     adoração generalizada de demônios, espíritos e várias outras divindades. Diferentemente do próprio Buda, todos estes são seres vivos e ativos,  os quais — se cultuados de modo correto — podem trazer vantagens mundanas. Os templos budistas muitas vezes contêm estátuas de deuses como Vishnu, Indra e Ganesha, mas sempre dispostas  de maneira subserviente a Buda.
O budismo tem espaço para um amplo espectro de cultos e sentimentos religiosos. Essa é uma importante razão pela qual o budismo ganhou tão ampla aceitação em toda a Ásia.

A difusão do budismo

Não muito depois da morte do Buda ocorreu uma divergência entre seus discípulos acerca da maneira como os ensinamentos dele deviam ser interpretados. Um século mais tarde (por volta  de  380  a.C.) foi realizado um concilio. Como diversos monges expressaram o desejo de moderar a disciplina monástica, o  encontro  terminou  numa divisão entre uma facção conservadora e outra mais liberal.
Na época moderna é costume distinguir entre  duas tendências principais: Theravada ("a escola dos antigos"), predominante no Sul da Ásia (Birmânia, Tailândia, Sri Lanka, Laos e Camboja), e Mahayana ("o grande veículo"), predominante no Norte da Ásia (China, Japão, Mongólia, Tibet, Coréia e Vietnã).

THERAVADA — o CAMINHO DA AUTO-REDENÇÃO
Como sugere o nome Theravada ("a escola dos antigos"), essa escola acredita representar o budismo em sua forma original.  De acordo com os ensinamentos do Buda, enfatiza a salvação individual por meio da meditação. Como não existe nenhum deus para redimir

o homem do ciclo dos renascimentos, ela ressalta que o indivíduo deve salvar a si mesmo. Assim, podemos dizer que o budismo Theravada é uma religião de auto-redenção.
Aqui, o Buda é visto como mestre e guia dos seres humanos.   Ele não é adorado como um deus, nem pode salvar as pessoas, mas indicou o caminho para a salvação, que pode ser seguido  pelo indivíduo.
Na prática, só os monges podem imitar o exemplo do Buda até atingir o nirvana, e mesmo entre eles, muito poucos o alcançam nesta vida. Um monge que pertença a esse pequeno grupo é chamado arhat (venerável). O arhat, como o Buda, já extinguiu seus desejos e venceu o mundo. É um exemplo resplandecente para os leigos e o ideal que todos os budistas perseguem, pois mesmo que  um  budista  não  consiga deixar este mundo definitivamente em sua vida atual,  ele pode conseguir um bom carma para si mesmo e talvez se tornar um monge numa existência futura.
Podemos dizer que a idéia mais importante do budismo Theravada é que o próprio indivíduo deve  assumir  responsabilidade por seu desenvolvimento ético e religioso. Não há atalho para  a salvação nem para a perfeição ética. Cada pessoa deve começar por si mesma. Isso se aplica aos leigos, bem como aos monges.

MAHAYANA — o CAMINHO DA AJUDA MÚTUA
Até agora, baseamos na  escola  Theravada  a  representação da vida e dos ensinamentos do Buda, assim como a descrição da vida religiosa budista. A seguir vamos nos afastar dessa abordagem do "budismo comum" e nos concentrar nas características do budismo Mahayana.
Mahayana significa "o grande veículo", ou "a grande nave", e seu nome reflete a crença, predominante no budismo do Norte  da Ásia, de que é possível levar todas as pessoas à redenção. O budismo Theravada é chamado de Hinayana, ou seja, "o  pequeno  veículo",  já que leva apenas alguns (os monges) a salvação.

Também na visão que têm de Buda, existem grandes diferenças entre o budismo Mahayana e o budismo Theravada. Enquanto o Theravada considera o Buda apenas um ideal e  um  raio de  salvação,  o Mahayana acredita no Buda como o salvador, isso é importante porque implica que os monges não são os únicos  que  podem  ser  salvos. Os leigos podem igualmente se devotar ao Buda e, por  sua  graça, alcançar a redenção.

OS BODHISATTVAS
O objetivo do budismo inicial era que o indivíduo atingisse a salvação por seus próprios esforços. O ideal do indivíduo consistia em   se tornar um arhat, ou seja, alguém que deixou o mundo para trás e entrou no nirvana. Esse objetivo, porém, era muito estreito para o Mahayana. Interessar-se apenas pela própria salvação é considerado egoísmo. O objetivo deve ser a  redenção de  todos. Em  conseqüência,  o ideal religioso do budismo Mahayana é o bodhisattva, o qual, depois de alcançar a iluminação (bodhi), abdica do nirvana a fim de ajudar outras pessoas a alcançar a salvação. Aqui  muitas  vezes  se  ressalta  que o próprio Buda abdicou do nirvana imediato por causa da compaixão por seus semelhantes.
Um bodhisattva ("existência iluminada") pode ser qualquer pessoa que resista a se tornar um Buda. No entanto, esse termo  se aplica sobretudo a uma longa lista de etéreas figuras de salvador, às quais os seres humanos podem recorrer em busca de ajuda. A única coisa que as distingue de um Buda é que elas não entram no nirvana  até que todas as criaturas vivas tenham sido redimidas do renascimento.
Características típicas de um bodhisattva são  a  compreensão e  a compaixão. Hoje em dia é a compaixão do bodhisattva que é mais realçada. A bondade para com as outras criaturas vivas não é considerada simplesmente um ideal, mas o caminho para  a  iluminação e a redenção.
Com sua doutrina do bodhisattva, o budismo Mahayana seafastou muito dos ensinamentos do  budismo Theravada. Assim como  o cristão "põe sua vida nas mãos de Deus",  o  muçulmano  "se  submete" a Alá e os vaishnavitas "se dedicam" a Vishnu — o budista mahayana pode compartilhar do amor salvador de um divino bodhisattva.

A DOUTRINA DO CARMA E A ILUSÃO DO EU
Como já vimos, o budismo Mahayana discorda do Theravada na doutrina de que o homem deve salvar a si mesmo. Isso também implica um rompimento com a doutrina estrita do carma. A idéia de que uma pessoa pode ser salva de seu carma pelos méritos alheios é impensável no budismo do Sul. Porém, o Mahayana tem um conceito próprio de carma: uma vez que há uma relação de dependência recíproca entre todos os seres vivos, não é o carma do indivíduo que é importante.
Nesse ponto, muitos budistas mahayana  se  referem  ao  fato de que a experiência do eu, de ser algo separado do mundo ao redor, é simplesmente resultado da cegueira do homem. E apenas os que fizeram pouco progresso rumo à iluminação é que sofrem dessa  cegueira. O bodhisattva, por outro lado, já  superou a  ilusão  do  eu e  não distingue mais entre si mesmo e os  outros.  Assim,  um  bodhisattva pode transferir algo de seu bom carma para os que procuram a ajuda dele na luta para atingir o nirvana.


Diversidade religiosa

O hinduísmo e o budismo sempre demonstraram um nível de abertura e tolerância em questões religiosas bem diferente daquele a que estamos acostumados no  Ocidente. A  diversidade religiosa não  é considerada uma fraqueza. Muitos budistas diriam até que o oposto é que é verdade. A força do budismo se  revela  nos  numerosos  frutos que ele traz.
O objetivo de todos os budistas é se redimir do ciclo dos renascimentos. A questão consiste em saber  que  métodos  ou  recursos devem ser procurados para se atingir esse  objetivo.  As pessoas são muito diferentes. Os povos asiáticos, em particular, são provenientes de formações culturais bastante variadas. Assim, os métodos utilizados precisam refletir esse fato. Em conseqüência, costuma-se destacar que a experiência é o princípio que deve guiar a escolha dos métodos.
Entre os muitos movimentos dentro do Mahayana, dois atraíram mais interesse nas últimas  décadas.  São  a  tendência tibetana Vajra-yana (o veículo de diamante) e o zen-budismo japonês. Esses movimentos se destacam do budismo Mahayana de várias maneiras.

BUDISMO TIBETANO
No Tibet, o budismo se incorporou à  religião  local, denominada Bon. Esta se caracterizava pela crença em deuses e espíritos, que eram cultuados com sacrifícios sangrentos,
 encenações de mistérios e danças rituais. Vários desses deuses originais continuam sendo cultuados como guardiães dos ensinamentos budistas. Contudo, sob a superfície  prevalece  a  doutrina budista. Os budistas tibetanos acreditam que eles represen- tam a doutrina original, não adulterada.
Algumas características externas mais aparentes do budismo tibetano são as rodas de oração e as bandeiras de oração — objetos     que contêm diversas orações e fórmulas escritas. Quando a roda de oração gira — impulsionada ou pela mão de alguém ou pelo vento ou pela correnteza de uma cachoeira — ou a bandeira tremula ao vento,  ela põe em movimento "a roda do ensinamento".
O mantra (fórmula mágica ou enunciação sagrada)  mais  comum no budismo tibetano é Om Manipadme Hum, que significa "O tu, que tens a jóia no teu lótus", ou  "Seja  louvada  a  jóia  no  lótus". Essa fórmula é encontrada por toda parte no Tibet: nas rodas de oração, nas paredes, nas rochas e, naturalmente, nos lábios daspessoas. Para aumentar sua eficiência, usa-se um rosário  de  108  contas (108 é um número sagrado).

O LAMAÍSMO
 No   Tibet   o   budismo   muitas   vezes   é   chamado   lamaísmo,  do termo lama ("professor" ou "mestre"), nome dado aos líderes espirituais, em geral monges.
Em nenhum outro país do mundo o budismo permeia tão completamente o tecido da sociedade como no Tibet. Grandes parcelas da população se integraram às ordens religiosas de monges e monjas, e os mosteiros sempre tiveram íntimo contato com os leigos. Vários  desses mosteiros já abrigaram mais de mil monges e são considerados  as maiores instituições monásticas que já existiram.
A originalidade do lamaísmo reside em sua estrutura social. Desde o século XVII o Tibet é governado por um lama principal, ou dalai-lama (oceano de sabedoria), que tem  sua  sede  na  capital, Lhassa. O dalai-lama é o líder religioso e político do país. Acredita-se que ele seja a reencarnação de um famoso bodhisattva.
Ao morrer um dalai-lama, os sacerdotes buscam uma criança que tenha sua marca. Quando, depois  de  vários  testes,  é encontrada a criança certa, ela é consagrada como o novo dalai-lama.

BUDISMO TIBETANO CONTEMPORÂNEO
Em virtude de sua cultura muito distinta e de sua localização inacessível entre as montanhas mais altas do mundo, o Tibet por um longo tempo foi considerado uma espécie de "terra de contos de fada". Porém, em 1959 o conto de fada teve um fim súbito: a China assumiu     o controle total do país e o dalai-lama foi obrigado a  fugir  para  a Índia, onde obteve asilo político. Desde essa época, dezenas de  milhares de tibetanos se refugiaram na Índia e no Nepal, lugares em que o budismo tibetano continua vivo.
Mosteiros budistas seguindo os padrões tibetanos  surgiram  na maioria dos países da Europa Ocidental e nas Américas.

Zen-budismo

A maior ambição de todos os budistas é atingir algum dia a iluminação (bodhi), como aconteceu com o Buda debaixo de sua figueira em Bodh Gaya, há 2500 anos. Dentro do budismo, porém, existem consideráveis diferenças de opinião sobre o que essa iluminação implica e como se chega a ela. Dentro da tradição do budismo Mahayana, surgiu na China uma escola especial de meditação  que,  mais do que qualquer outro movimento, realçava a iluminação como o verdadeiro núcleo do budismo. Esse movimento aos poucos se espalhou para a Coréia e o Japão, e ficou conhecido no Ocidente por seu nome japonês, Zen, que significa "meditação". Como hoje em  dia   é mais fácil estudar o zen no Japão do que na China, vamos nos concentrar no zen-budismo japonês. No Japão essa vertente budista conta hoje com cerca de 20 mil templos e 5 milhões de adeptos, entre monges e leigos.

"VISÃO DIRETA"
O zen-budismo se baseia na iluminação do Buda. Os ensinamentos do Buda, tal como foram passados para os textos budistas, não recebem tanta prioridade. Isso reflete a profunda desconfiança do zen quanto à palavra e sua capacidade de transmitir conhecimento. Não obstante, aquilo que não pode  ser  transmitido  pela palavra pode ser transmitido pela "visão direta". Diz-se que  o  Buda trouxe a iluminação para seu discípulo mais promissor simplesmente segurando uma flor diante dele, sem nada dizer. Assim,  a iluminação vem sendo comunicada de geração em geração pela transmissão não verbal.
Ensina o zen que a iluminação deve  vir  de  dentro,  deve  ter sua origem no coração do indivíduo. Conta-se que um famoso mestre zen jogou todas as imagens do Buda na  lareira  a  fim  de  aquecer  a sala em que ele e seus discípulos se encontravam.
Os ensinamentos do Buda só podem nos levar até uma parte do caminho. Podem ensinar o rumo certo, mas o importante é vislumbrar aquilo para onde apontam, a iluminação em si. Nós, seres humanos, muitas vezes nos comportamos como crianças; estamos
 mais interessados no dedo que aponta do que naquilo que ele mostra.   É fácil manifestar mais preocupação com as idéias ou os rituais religiosos do que com a experiência religiosa que é objeto dessas idéias   e desses rituais. Aqui o método de "apontar diretamente" pode ajudar   a obter uma compreensão espontânea da realidade, uma  percepção sem restrições, que não precisa de palavras.
Uma vez que a  iluminação deve vir de  dentro,  o  zen-budismo
 não tem nenhuma fórmula fixa para alcançá-la. Mas ela pode chegar quando menos se espera e atingir a pessoa como  um  raio.  É  como uma   piada   que   de   repente  se   compreende.  De   súbito,  a   pessoa  "desperta"  —  e  fica  consciente  de  que  faz  parte  do  infinito,  de uma maneira inteiramente nova. Isso não vem  gradualmente,  com  o tempo. Quando ela chega de fato, é total. Sua manifestação não está ligada nem mesmo à meditação. Uma experiência mundana qualquer também   pode   acabar   levando,   com   igual   facilidade,   ao  objetivo desejado.

A "TERAPIA DE CHOQUE" ZEN-BUDISTA
Alguém já disse que o budismo  Theravada  busca  abrir  a  porta do nirvana à força, ao passo que o Mahayana quer  ficar  mexendo a chave até que a porta se abra por vontade própria. Essa descrição talvez seja mais típica do zen-budismo que de outros movimentos mahayanas.
Como vimos, as noções fixas podem ser um obstáculo para a iluminação;  portanto,  um   pré-requisito  é   a   mente  se   esvaziar de discípulo e com seus processos conceituais de pensamento.  Desde a  era chinesa do  zen,  a  mais antiga, isso sempre foi feito pelos mestres  ao apresentar a seus discípulos perguntas e respostas totalmente surpreendentes.  A  seguinte  conversa  entre  mestre  e  discípulo serve de exemplo dessa técnica:

DISCÍPULO: Qual é o caminho para a libertação? MESTRE: Quem está te acorrentando?
DISCÍPULO: Ninguém está me acorrentando. MESTRE: Então, por que queres ser libertado?
Semelhante a esses diálogos é o  uso  de  charadas  que  parecem absurdas e sem sentido. O mestre zen pode fazer a seu discípulo perguntas como: "Como era seu rosto antes  de  você  nascer?". Ou: "Que som se produz quando se bate palma com uma só mão?". Ao ponderar esses enigmas, o discípulo zen é levado a experimentar um "sentimento de dúvida"

 O ZEN NA VIDA COTIDIANA
Uma característica do zen é sua atitude positiva para com as tarefas      mundanas.      Isso      deriva  da        visão            zen      sobre   o          que      é          a iluminação.
Se se pedisse a um zen-budista que  explicasse a  iluminação,  ele poderia talvez dizer: "O cipreste no jardim!". Ou, se ele realmente estivesse disposto a responder à pergunta em nossos termos, poderia dizer que a iluminação é perceber que não  existe iluminação. Como  não há nenhuma "verdade" para a qual se deva acordar, e nenhuma "ilusão" da qual se deva acordar, a iluminação é compreender que o mundo é tal qual nós o vemos.
Mas nós estamos agora empregando palavras e conceitos, e assim fazendo, estamos  nos  distanciando  dos  ensinamentos  do Buda. Talvez devêssemos dizer que não há  nenhuma outra maneira   de compreender o significado da vida a não ser vivê-la. Em conseqüência, muitos zen-budistas destacam que o trabalho rotineiro pode ser usado como um exercício de  meditação. A  prática  consciente de  uma  rotina  manual  pode  ser  tão  favorável  para  a  iluminação quanto a meditação e os rituais religiosos. Por esse motivo, ocupações aparentemente  triviais  como  tomar  chá,  fazer  arranjos  de  flores  ecuidar do jardim passaram a ter grande importância no zen-budismo. No Japão, certos esportes e formas de arte também receberam forte influência do zen: arco e flecha, luta corporal, esgrima, teatro, poesia (haicai), música e pintura.


O reavivamento budista

Em épocas recentes, e em especial desde a última guerra mundial, o budismo passou por um reavivamento, sobretudo entre os budistas com mais treino filosófico. Aspectos importantes desse reavivamento são o trabalho pela unidade do  budismo,  maior  empenho missionário e maior atividade social.

MAIOR UNIDADE
Diversos concílios mundiais budistas tentaram iniciar uma cooperação budista internacional. Isso inclui um esforço para se obter maior unanimidade de doutrina entre as várias seitas budistas. Os concílios passam a desempenhar, assim, um papel semelhante ao do Conselho Mundial de Igrejas dentro da religião cristã.

MISSÃO
Outro aspecto desse reavivamento budista é a atividade missionária, que começou também no Ocidente. Hoje há milhares de budistas nas Américas e na Europa Ocidental, e várias capitais têm centros missionários. Por outro lado, o budismo perdeu terreno em países da Ásia depois da Segunda Guerra Mundial, sobretudo em razão da ascensão do comunismo.

ATIVIDADE SOCIAL
Houve ainda uma grande mudança no terreno ético. O ideal budista original era trabalhar por sua própria salvação se valendo da meditação, algo que pouco incentiva a atividade social. Mas o budismo também realça a abnegação de si e a caridade, o que tem levado a uma participação ativa nas questões sociais e políticas contemporâneas.



Fonte: GAARDER, Josteins; HELLERN , Victor; NOTAKER, Henry. Livros das Religiões.

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