Três religiões dominam a África
moderna. O cristianismo se encontra sobretudo no Sul e ao longo dos litorais
leste e oeste. O centro do islã fica na África setentrional
árabe, mas historicamente essa religião sempre teve penetração também ao sul do
Saara. Há, por fim, as religiões primais, ou tribais, ou tradicionais, as mais
difundidas antes da
invasão cultural ocidental
e árabe. Na
África moderna,
a estrutura tradicional baseada na aldeia está desaparecendo e,
juntamente com ela,
o fundamento das antigas religiões, que era a vida familiar e tribal.
As religiões africanas
tradicionais não têm textos escritos, o que torna seu estudo difícil para os
pesquisadores. Boa parte do conhecimento que temos sobre essas religiões,
reunido durante os últimos séculos, apoia-se nos relatos de observadores
europeus, sejam eles mercadores, colonizadores ou missionários. Tais descrições
são muito influenciadas pelas constantes comparações entre a vida religiosa e
cultural do local e o cristianismo e
a cultura ocidental. Mais recentemente, etnólogos e
antropólogos sociais vêm se utilizando de métodos científicos modernos para
estudar as religiões africanas, porém mesmo eles as veem de uma perspectiva
externa.
Uma fonte de
conhecimento sobre as religiões
africanas são os mitos que sobreviveram por meio da tradição oral, mas também
se deve considerar que
o conteúdo das
histórias contadas pode
ter se alterado ao longo das
gerações. As religiões primais, assim como todas as outras, são influenciadas por fatores
externos, e muitas adotaram elementos do islã ou do cristianismo. Uma
característica das religiões africanas mais recentes são os milhares de
movimentos sincretistas que surgiram em torno das missões cristãs.
Ao agrupar as religiões
africanas sob um
só rótulo, deve-se ter em mente que seu número equivale
ao de povos existentes na África. Cada uma tem seu próprio nome para
Deus, seus próprios rituais de culto, suas idiossincrasias. Por outro lado,
elas apresentam também muitos traços em comum, pois os africanos não viveram
uma existência estática, isolada. Sua história fala de diversas
migrações, dos contatos que cruzaram as divisões tribais e
da formação de grandes Estados. É
necessário notar ainda que a maioria dos africanos não urbanos são agricultores
e criadores de gado. Há apenas alguns grupos de caçadores-coletores.
Papel essencial da tribo e da família
O termo tribal, quando
associado às religiões africanas, oferece-nos uma chave para compreender algo
essencial sobre elas.
A tribo — ou o clã, grupo de
parentesco ou família extensa — forma o arcabouço para a existência diária do
africano. O respeito por essa instituição é mais importante do que
o respeito pelo indivíduo. O que
é especial no
conceito que esses
africanos têm de família (ou
tribo) é que ela compreende, além dos vivos, os mortos. O ancestral permanece
próximo à tribo; torna-se uma espécie de espírito vivendo num mundo à parte, ou
pairando sobre o lar para
garantir que seus descendentes observem os costumes.
O costume, ou a organização da sociedade, ou
ainda a "constituição", para usar um nome mais moderno, foi
estabelecido quando a tribo passou a existir, numa época que os mitos chamam de
"o princípio dos tempos". O dever dos vivos é assegurar a preservação
dessa organização, o que se consegue obedecendo cuidadosamente a todas as
regras e, acima de tudo, fazendo sacrifícios aos espíritos dos ancestrais.
Entretanto,
a família não
consiste apenas nos
vivos e nos mortos, mas também nos
ainda não nascidos, nos descendentes. E dever
do indivíduo dar
continuidade à família.
Um dos piores infortúnios pessoais é morrer sem
deixar filhos.
Quando uma família se extingue,
a conexão dos espíritos ancestrais com a Terra é cortada, pois não sobra
ninguém para manter contato com eles. Assim, se um homem
tem mais de uma esposa e gera muitos filhos, sua alma fica em paz. Ele
sabe que depois da morte sua alma não será
forçada a vagar
pelo espaço vazio, desconectada da Terra, pois estará
sempre ligada a alguém.
Uma das
tarefas mais importantes do homem é
tomar conta do território que foi
outorgado à tribo por seus
pais fundadores, terra que, por
sua vez, será passada aos descendentes
dele. Em outras palavras, não há propriedade privada
da terra e ela não pode ser vendida aos pedaços.
O CHEFE TRIBAL
A tribo é liderada por um chefe
ou rei. O papel do rei e seu poder variam de tribo para tribo e sofreram
mudanças no decorrer da história, em particular depois da colonização da
África pelas potências europeias.
O rei não é apenas um líder político, mas
ainda um juiz em exercício, o guardião da justiça e da lei. Com muita
freqüência, é ele também o sacerdote responsável pelos sacrifícios da tribo.
O motivo por que o rei acumula todas
essas diferentes funções é que
não há uma demarcação clara entre política, religião, lei e
moral. Cada uma dessas formas é
parte do princípio — o costume—sobre o
qual aquela sociedade tribal está construída.
O rei é o guardião cotidiano
desses preceitos; ele personifica o contato com os antepassados, com a
tradição. E também o representante dos deuses na Terra, bem como porta-voz dos
homens perante os deuses.
DEUSES E ESPÍRITOS
Baseando-se nos mitos, que nunca
eram escritos, mas passados oralmente de geração em geração,
os estudiosos já tentaram descobrir o que caracteriza a crença divina dos
africanos.
Na maioria das tribos existe a
crença num deus supremo, embora este receba muitos nomes. Normalmente associado
ao céu, é ele que concede a fertilidade, e em alguns mitos é
representado ao lado da deusa
associada à terra.
Foi esse
deus supremo que
criou todas as
coisas vivas, os animais
e o ser
humano. Foi ele ainda
o responsável pelos decretos que regulam a sociedade, pelos
costumes a que a tribo tem o dever de obedecer. Com freqüência ele é também o
deus do destino, que governa a vida dos
seres humanos e controla a boa ou má fortuna da tribo.
As vezes, esse ser supremo é
chamado de "deus em repouso", por estar remotamente afastado da vida
cotidiana. Certos mitos relatam que havia um contato íntimo entre o deus e o
homem no início dos tempos, quando tudo era bom; só que houve um desentendimento e o deus se
afastou. É apenas em circunstâncias excepcionais, quando as pessoas estão passando por
graves necessidades, que elas recorrem ao deus supremo. De modo
geral, não precisam
perturbá-lo, preferindo se
voltar para deuses
e espíritos menores.
Esses outros deuses, forças e
espíritos se encontram nas florestas, nas planícies e nas montanhas, nos rios e
nos lagos. São intimamente associados a fenômenos naturais distintos: o raio e
o trovão, as grandes cachoeiras, uma primavera quente, alguma árvore enorme ou uma rocha
com formato estranho.
A religião ganda, praticada pelo povo Baganda, de Uganda, tem um
deus supremo chamado Katonda, porém o culto mais importante se dirige a uma
constelação de divindades menores. Uma delas é o deus da água, Mukasa, o qual
governa a fertilidade e a saúde. Há ainda o deus da guerra, Kibuka, que no
passado exigia sacrifícios humanos. Também
é costumeiro tratar os espíritos dos
mortos com respeito; o culto
aos antepassados é um dos aspectos mais típicos da religião africana.
CULTO
AOS ANTEPASSADOS
Os
antepassados são invisíveis, mas acredita-se que mantenham a aparência que
tinham em vida, ou talvez sejam um pouco menores.
Os africanos não têm nenhum conceito de
divisão entre corpo e alma e não crêem que é a alma que sobrevive. Os espíritos
já foram comparados a sombras ou duplos dos mortos, capazes de estar em vários
lugares ao mesmo tempo: no túmulo, no
mundo dos mortos ou em fenômenos
próximos ao homem.
Uma noção comum é que os mortos vivem no mundo
deles da mesma maneira que viviam neste. Até seu status social é mantido.
Eles se
revelam aos vivos sobretudo
em sonhos, mas também
como animais e outros objetos naturais.
Cada
homem adulto que morre se torna um espírito ancestral ou um deus ancestral para
os que ficaram vivos, mas nem todos exercem o
mesmo papel, nem constituem objetos do
mesmo culto. Os mais importantes
são os espíritos dos pais de família, dos patriarcas e dos
chefes da tribo. O homem
que é considerado
o pai fundador de
uma linhagem de
chefes com freqüência
é cultuado como um deus acima de todos os outros, uma divindade
nacional.
Culto
aos antepassados é uma expressão
que implica interação entre os
vivos e os mortos. Os vivos obtêm força e socorro de seus ancestrais; ao mesmo tempo, os mortos dependem das oferendas de seus descendentes: é por meio desses sacrifícios que
adquirem sua força e potência. Se não receberem oferendas, irão "morrer", isto é, cessar
completamente de existir. Fazer um sacrifício a um ancestral pode ser algo
bastante simples. Um membro
da tribo vai
até o túmulo
de seu pai,
por exemplo, oferece
uma pequena quantidade
de comida e bebida, e pede ajuda para resolver uma situação difícil.
Mais
comum é a oferenda familiar coletiva. Esta é comandada pelo chefe da família e
presta homenagem aos pais já falecidos, os espíritos mais proeminentes. Ter
status é fundamental, e o chefe da família é o único que tem o direito de fazer
esse sacrifício; só que ele o faz em nome de toda a sua família.
O
chefe da tribo é responsável pelos sacrifícios do grupo mais extenso. Em nome
de toda a tribo, ele se dirige aos espíritos de antigos chefes e faz orações
pedindo uma boa caça ou uma boa safra. Na época da colheita, os primeiros frutos são
oferecidos aos espíritos dos chefes. Selecionam-se os melhores produtos em
honra dos espíritos, e com o acompanhamento de orações, cantos e danças, as
pessoas — em geral usando máscaras e outros adornos —
expressam sua gratidão
e oram para continuar tendo
proteção.
Os especialistas em religião
O
papel do chefe ou rei muitas vezes inclui as funções de sacerdote, mas há
também uma série de outros
especialistas religiosos:
curandeiros, adivinhos, oráculos, profetas e
magos fazedores de chuva.
CURANDEIROS
Nganga
é uma palavra empregada entre os povos de idioma banto, no Sul da África, e
pode ser traduzida simplesmente por "médico" ou "doutor". O
nganga é bastante familiarizado com muitas das causas físicas das doenças, e
utiliza ervas e plantas da medicina popular em sua prática médica. O
tratamento, porém, costuma ser acompanhado de amuletos e fórmulas mágicas para
controlar os espíritos maus. É uma crença
comum a existência
de "bruxas" e
"feiticeiros", pessoas que tentam fazer mal aos outros usando, por exemplo,
a magia negra.
A tarefa do
curandeiro é anular
o feitiço, possivelmente empregando os mesmos métodos mágicos.
MAGIA
A magia é definida como "a
capacidade de influenciar os acontecimentos aliciando os seres espirituais ou
ativando forças naturais ocultas". Muitas sociedades tribais africanas têm
fazedores de
chuva. Eles usam a chamada magia homeopática
quando querem que chova ou quando querem que a chuva cesse.
Se querem chuva, podem, por exemplo, imitar seu ruído
despejando água numa peneira. Podem também saltitar agachados, coaxando, como
fazem os sapos quando chove. Ou ainda podem cobrir a cabeça com uma folha de
palmeira, fingindo que está chovendo. Se, por outro lado, querem que a chuva cesse, podem acender uma fogueira
imitando o sol. A magia homeopática se baseia no princípio "semelhante
atrai semelhante". Acredita-se na existência de uma conexão entre dois fenômenos que se parecem. Se se cria uma situação de chuva,
a chuva ne- cessariamente tem que cair.
Outro tipo é a magia de
contágio, a qual age segundo o princípio de que há uma conexão entre as partes
e o todo. Se, por exemplo, alguém possui algo — uma peça de roupa, alguns fios
de cabelo ou um fragmento de unha — que pertence a um inimigo, terá poder sobre
este. Se qualquer uma dessas coisas for agredida, seu possuidor também sofrerá. É igualmente comum considerar
que o nome é parte da pessoa. Assim, em
muitos lugares as pessoas receiam dizer seu
nome, temendo que alguém possa utilizá-lo para fazer mal a elas.
ADIVINHAÇÃO E PROFECIA
Os adivinhos são especialistas
em interpretar as mensagens
dos espíritos. Alguns curandeiros são adivinhos e empregam suas técnicas
para fazer diagnósticos. Mas os adivinhos também podem aconselhar sobre o que
fazer numa determinada situação ou sobre
como apaziguar a ira dos deuses.
Eles possuem muitas técnicas. O
adivinho pode usar, por exemplo, um cesto contendo vários objetos. Cada um
deles tem um significado simbólico; cada um indica certa situação ou característica humana. Quando se sacode a
cesta, os objetos saem do lugar; o adivinho então examina quais objetos ficaram
por cima e suas posições relativas.
Atirar objetos para o ar e ver de que maneira
caem também é uma prática comum. Os
adivinhos pertencentes ao povo Chona, do Zimbábue, utilizavam quatro pedaços de
osso ou de madeira, que representavam um velho, uma velha, um rapaz e uma moça,
e tinham marcas mostrando seu lado de cima e seu lado de baixo. Com base nas
posições relativas desses objetos ao caírem ao chão, o adivinho tirava suas
conclusões.
Não se trata apenas de algo
como tirar a
sorte com números ou jogar
cara-ou-coroa. O adivinho considera que a resposta obtida é uma mensagem vinda
dos espíritos ou dos deuses. Mas eles também podem se
manifestar diretamente, por
intermédio de certos indivíduos especiais. Usando a música
e a dança, esses indivíduos entram em transe e ficam "possuídos" por
um espírito, que se faz conhecer e pode ser interrogado pela pessoa que está
possuída. Tais indivíduos são valiosos
conselheiros na comunidade
e desfrutam de um status elevado
no culto. Outros atuam como profetas
independentes.
RITOS DE PASSAGEM
Alguns especialistas religiosos
são responsáveis pela vida ritual. De especial importância são os ritos de
passagem associados com o nascimento, a morte, a puberdade e o casamento. Quando
os meninos da tribo passam da infância para a idade adulta, devem se submeter
aos chamados ritos da puberdade. Os Baluba, um povo banto, começam isolando os
meninos do resto da comunidade e sobretudo das mulheres, até mesmo de suas
mães. Eles são então circuncidados e enviados à floresta para um duro teste de
várias semanas durante o qual aprenderão também as crenças e os costumes de
seus antepassados. Quando por fim retornam à aldeia, são considerados homens adultos, prontos para
casar e ter filhos.
FONTE: GAARDER, Josteins; HELLERN , Victor; NOTAKER, Henry. Livros das
Religiões.

Nenhum comentário:
Postar um comentário