segunda-feira, 16 de abril de 2018

Religiões Africanas




Religiões Africanas




Três religiões dominam a África moderna. O cristianismo se encontra sobretudo no Sul e ao longo dos litorais leste e  oeste.  O centro do islã fica na África setentrional árabe, mas historicamente essa religião sempre teve penetração também ao sul do Saara. Há, por fim, as religiões primais, ou tribais, ou tradicionais, as mais difundidas  antes  da   invasão  cultural  ocidental  e   árabe.             Na   África  moderna,               a  estrutura       tradicional          baseada              na aldeia está desaparecendo   e,   juntamente   com   ela,   o   fundamento   das antigas  religiões, que era a vida familiar e tribal.

As religiões africanas tradicionais não têm textos escritos, o que torna seu estudo difícil para os pesquisadores. Boa parte do conhecimento que temos sobre essas religiões, reunido durante os últimos séculos, apoia-se nos relatos de observadores europeus, sejam eles mercadores, colonizadores ou missionários. Tais descrições são muito influenciadas pelas constantes comparações entre a vida religiosa e cultural do local e o cristianismo e  a  cultura  ocidental. Mais recentemente, etnólogos e antropólogos sociais vêm se utilizando de métodos científicos modernos para estudar as religiões africanas, porém mesmo eles as veem de uma perspectiva externa.

Uma  fonte de  conhecimento sobre as  religiões africanas são os mitos que sobreviveram por meio da tradição oral, mas  também  se deve  considerar  que  o  conteúdo  das  histórias  contadas  pode  ter  se alterado ao longo das gerações. As religiões primais, assim como todas  as outras, são influenciadas por fatores externos, e muitas adotaram elementos do islã ou do cristianismo. Uma característica das religiões africanas mais recentes são os milhares  de  movimentos  sincretistas  que surgiram em torno das missões cristãs.

Ao agrupar as religiões africanas  sob  um    rótulo,  deve-se ter em mente que seu número equivale ao de povos existentes  na  África. Cada uma tem seu próprio nome para Deus, seus próprios rituais de culto, suas idiossincrasias. Por outro lado, elas apresentam também muitos traços em comum, pois os africanos não  viveram  uma existência estática, isolada. Sua história fala de diversas migrações, dos contatos que cruzaram as divisões tribais  e  da  formação de grandes Estados. É necessário notar ainda que a maioria dos africanos não urbanos são agricultores e criadores de gado. Há apenas alguns grupos de caçadores-coletores.

Papel essencial da tribo e da família

O termo tribal, quando associado às religiões africanas, oferece-nos uma chave para compreender algo essencial sobre elas.

A tribo — ou o clã, grupo de parentesco ou família extensa — forma o arcabouço para a existência diária do africano. O respeito por essa instituição é mais importante do  que  o  respeito pelo indivíduo. O  que   é   especial   no   conceito  que   esses   africanos   têm de família (ou tribo) é que ela compreende, além dos vivos, os mortos. O ancestral permanece próximo à tribo; torna-se uma espécie de espírito vivendo num mundo à parte, ou pairando sobre o  lar  para  garantir que seus descendentes observem os costumes.

 O costume, ou a organização da sociedade, ou ainda a "constituição", para usar um nome mais moderno, foi estabelecido quando a tribo passou a existir, numa época que os mitos chamam de "o princípio dos tempos". O dever dos vivos é assegurar a preservação dessa organização, o que se consegue obedecendo cuidadosamente a todas as regras e, acima de tudo, fazendo sacrifícios aos espíritos dos ancestrais.
 Entretanto,  a   família  não   consiste   apenas  nos   vivos  e nos mortos, mas também nos ainda não nascidos, nos descendentes. E dever   do   indivíduo   dar   continuidade   à   família.   Um   dos   piores infortúnios pessoais é morrer sem deixar filhos.

Quando uma família se extingue, a conexão dos espíritos ancestrais com a Terra é cortada, pois não sobra ninguém  para  manter contato com eles. Assim, se um homem tem mais de uma esposa e gera muitos filhos, sua alma fica em paz.  Ele  sabe  que  depois da morte sua alma não será forçada  a  vagar  pelo  espaço  vazio, desconectada da Terra, pois estará sempre ligada a alguém.

Uma  das  tarefas  mais  importantes do  homem é  tomar  conta do território que foi outorgado à tribo  por  seus  pais  fundadores, terra que, por sua vez, será passada  aos  descendentes  dele.  Em  outras palavras, não há propriedade privada da terra e ela não pode ser vendida aos pedaços.

O CHEFE TRIBAL

A tribo é liderada por um chefe ou rei. O papel do rei e  seu  poder variam de tribo para tribo e sofreram mudanças no decorrer da história, em particular depois da colonização  da  África  pelas potências europeias.

 O rei não é apenas um líder político, mas ainda um juiz em exercício, o guardião da justiça e da lei. Com muita freqüência, é ele também o sacerdote responsável pelos sacrifícios da tribo.
O motivo por que o rei acumula  todas  essas  diferentes funções é que não há uma demarcação clara entre política, religião, lei  e  moral.  Cada uma dessas formas é parte do princípio — o  costume—sobre o qual aquela sociedade tribal está construída.
O rei é o guardião cotidiano desses preceitos; ele personifica o contato com os antepassados, com a tradição. E também o representante dos deuses na Terra, bem como porta-voz dos homens perante os deuses.

DEUSES E ESPÍRITOS

Baseando-se nos mitos, que  nunca  eram  escritos,  mas passados oralmente de geração em geração, os estudiosos já tentaram descobrir o que caracteriza a crença divina dos africanos.

Na maioria das tribos existe a crença num deus supremo, embora este receba muitos nomes. Normalmente associado ao céu, é ele que concede a fertilidade, e em alguns  mitos é  representado ao  lado da deusa associada à terra.

 Foi  esse  deus  supremo  que   criou  todas  as   coisas  vivas,  os animais  e  o  ser  humano. Foi  ele  ainda  o  responsável  pelos decretos que regulam a sociedade, pelos costumes a que a tribo tem o dever de obedecer. Com freqüência ele é também o deus do destino, que  governa a vida dos seres humanos e controla a boa ou má fortuna da tribo.

As vezes, esse ser supremo é chamado de "deus em repouso", por estar remotamente afastado da vida cotidiana. Certos mitos relatam que havia um contato íntimo entre o deus e o homem no início dos tempos,       quando  tudo    era                bom;                que        houve um desentendimento e o deus se afastou. É apenas em circunstâncias excepcionais, quando as pessoas estão            passando  por    graves necessidades, que elas recorrem ao deus supremo. De  modo  geral,  não  precisam  perturbá-lo,  preferindo  se  voltar  para  deuses  e  espíritos menores.

Esses outros deuses, forças e espíritos se encontram nas florestas, nas planícies e nas montanhas, nos rios e nos lagos. São intimamente associados a fenômenos naturais distintos: o raio e o trovão, as grandes cachoeiras, uma primavera quente, alguma árvore enorme   ou   uma   rocha  com   formato  estranho.   A   religião ganda,  praticada pelo povo Baganda, de Uganda, tem um deus supremo chamado Katonda, porém o culto mais importante se dirige a uma constelação de divindades menores. Uma delas é o deus da água, Mukasa, o qual governa a fertilidade e a saúde. Há ainda o deus da guerra, Kibuka, que no passado exigia sacrifícios humanos. Também    é  costumeiro tratar os  espíritos dos  mortos com  respeito; o  culto  aos antepassados é um dos aspectos mais típicos da religião africana.

CULTO AOS ANTEPASSADOS
Os antepassados são invisíveis, mas acredita-se que mantenham a aparência que tinham em vida, ou talvez sejam um pouco menores.
 Os africanos não têm nenhum conceito de divisão entre corpo e alma e não crêem que é a alma que sobrevive. Os espíritos já foram comparados a sombras ou duplos dos mortos, capazes de estar em vários lugares ao mesmo tempo: no túmulo, no  mundo  dos mortos ou em fenômenos próximos ao homem.
 Uma noção comum é que os mortos vivem no mundo deles da mesma maneira que viviam neste. Até seu status social é mantido. Eles  se  revelam aos  vivos sobretudo em  sonhos, mas  também   como animais e outros objetos naturais.
Cada homem adulto que morre se torna um espírito ancestral ou um deus ancestral para os que ficaram vivos, mas nem todos exercem o  mesmo papel, nem constituem objetos do  mesmo culto.   Os mais importantes são os espíritos dos pais de família, dos patriarcas e  dos  chefes da  tribo. O  homem  que  é  considerado  o  pai fundador  de   uma   linhagem  de   chefes  com   freqüência  é cultuado como um deus acima de todos os outros, uma divindade nacional.
Culto aos antepassados é  uma  expressão  que  implica interação entre os vivos e os mortos. Os vivos obtêm força e socorro de seus           ancestrais;          ao           mesmo                tempo, os mortos dependem das oferendas de seus descendentes: é             por         meio     desses  sacrifícios            que adquirem sua força e potência. Se não receberem oferendas,  irão "morrer", isto é, cessar completamente de existir. Fazer um sacrifício a um ancestral pode ser algo bastante simples.  Um  membro  da  tribo  vai  até  o  túmulo  de  seu  pai,  por  exemplo,  oferece   uma   pequena  quantidade  de   comida  e   bebida, e  pede ajuda para resolver uma situação difícil.
Mais comum é a oferenda familiar coletiva. Esta é comandada pelo chefe da família e presta homenagem aos pais já falecidos, os espíritos mais proeminentes. Ter status é fundamental, e o chefe da família é o único que tem o direito de fazer esse sacrifício; só que ele o faz em nome de toda a sua família.
O chefe da tribo é responsável pelos sacrifícios do grupo mais extenso. Em nome de toda a tribo, ele se dirige aos espíritos de antigos chefes e faz orações pedindo uma boa caça ou uma boa safra. Na época  da colheita, os primeiros frutos são oferecidos aos espíritos dos chefes. Selecionam-se os melhores produtos em honra dos espíritos, e com o acompanhamento de orações, cantos e danças, as pessoas — em geral usando máscaras e outros adornos    expressam  sua  gratidão  e  oram para continuar tendo proteção.

Os especialistas em religião
O papel do chefe ou rei muitas vezes inclui as funções de sacerdote, mas há também uma série  de  outros  especialistas  religiosos: curandeiros, adivinhos, oráculos, profetas e  magos  fazedores de chuva.
CURANDEIROS
Nganga é uma palavra empregada entre os povos de idioma banto, no Sul da África, e pode ser traduzida simplesmente por "médico" ou "doutor". O nganga é bastante familiarizado com muitas das causas físicas das doenças, e utiliza ervas e plantas da medicina popular em sua prática médica. O tratamento, porém, costuma ser acompanhado de amuletos e fórmulas mágicas para controlar os espíritos  maus.  É   uma   crença  comum  a   existência  de   "bruxas" e "feiticeiros", pessoas que tentam fazer mal aos outros usando,  por exemplo,   a   magia  negra.  A   tarefa   do   curandeiro   é   anular   o feitiço, possivelmente empregando os mesmos métodos mágicos.

MAGIA

A magia é definida como "a capacidade de influenciar os acontecimentos aliciando os seres espirituais ou ativando forças naturais ocultas". Muitas sociedades tribais africanas têm fazedores de
 chuva. Eles usam a chamada magia homeopática quando querem que chova ou quando querem que a chuva  cesse.  Se  querem  chuva, podem, por exemplo, imitar seu ruído despejando água numa peneira. Podem também saltitar agachados, coaxando, como fazem os sapos quando chove. Ou ainda podem cobrir a cabeça com uma folha de palmeira, fingindo que está chovendo. Se, por outro lado, querem que  a chuva cesse, podem acender uma fogueira imitando o sol. A magia homeopática se baseia no princípio "semelhante atrai semelhante". Acredita-se na existência de  uma conexão entre dois fenômenos que  se parecem. Se se cria uma situação de chuva, a chuva ne-  cessariamente tem que cair.

Outro tipo é a magia de contágio, a qual age segundo o princípio de que há uma conexão entre as partes e o todo. Se, por exemplo, alguém possui algo — uma peça de roupa, alguns fios de cabelo ou um fragmento de unha — que pertence a um inimigo, terá  poder sobre  este. Se qualquer uma dessas coisas for agredida, seu possuidor  também sofrerá. É igualmente comum considerar que o nome é parte  da pessoa. Assim, em muitos lugares as pessoas receiam dizer seu  nome, temendo que alguém possa utilizá-lo para fazer mal a elas.

ADIVINHAÇÃO E PROFECIA

Os adivinhos são especialistas em interpretar  as  mensagens  dos espíritos. Alguns curandeiros são adivinhos e empregam suas técnicas para fazer diagnósticos. Mas os adivinhos também podem aconselhar sobre o que fazer numa determinada situação ou sobre  como apaziguar a ira dos deuses.

Eles possuem muitas técnicas. O adivinho pode usar, por exemplo, um cesto contendo vários objetos. Cada um deles tem um significado simbólico; cada um indica certa situação  ou característica humana. Quando se sacode a cesta, os objetos saem do lugar; o adivinho então examina quais objetos ficaram por cima e suas posições relativas.

 Atirar objetos para o ar e ver de que maneira caem também é  uma prática comum. Os adivinhos pertencentes ao povo Chona, do Zimbábue, utilizavam quatro pedaços de osso ou de madeira, que representavam um velho, uma velha, um rapaz e uma moça, e tinham marcas mostrando seu lado de cima e seu lado de baixo. Com base nas posições relativas desses objetos ao caírem ao chão, o adivinho tirava suas conclusões.
Não se trata apenas de algo como  tirar  a  sorte com  números ou jogar cara-ou-coroa. O adivinho considera que a resposta obtida é uma mensagem vinda dos espíritos ou dos deuses. Mas eles também podem   se    manifestar    diretamente,    por    intermédio    de   certos indivíduos especiais. Usando a música e a dança, esses indivíduos entram em transe e ficam "possuídos" por um espírito, que se faz conhecer e pode ser interrogado pela pessoa que está possuída. Tais indivíduos  são  valiosos  conselheiros  na  comunidade  e  desfrutam de um status elevado no culto. Outros atuam como  profetas independentes.

RITOS DE PASSAGEM

Alguns especialistas religiosos são responsáveis pela vida ritual. De especial importância são os ritos de passagem associados com o nascimento, a morte, a puberdade e o casamento. Quando os meninos da tribo passam da infância para a idade adulta, devem se submeter aos chamados ritos da puberdade. Os Baluba, um povo banto, começam isolando os meninos do resto da comunidade e sobretudo das mulheres, até mesmo de suas mães. Eles são então circuncidados e enviados à floresta para um duro teste de várias semanas durante o qual aprenderão também as crenças e os costumes de seus antepassados. Quando por fim retornam à aldeia,  são considerados homens adultos, prontos para casar e ter filhos.



FONTE: GAARDER, Josteins; HELLERN , Victor; NOTAKER, Henry. Livros das Religiões.

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